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SALTWORKS
Katy Beinart

Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem

Saltworks relaciona migração, regeneração e memória através do material e das qualidades metafóricas do sal. O sal é uma substância do quotidiano que contém múltiplas histórias, viagens e narrativas. O sal interliga um mercado em Londres com locais em Portugal, incluindo Aveiro, Figueira da Foz e Rio Maior, cruzando culturas e representando o movimento de diásporas passadas e presentes formadas a partir do comércio e da migração, e que ainda moldam as nossas cidades. O meu fascínio com o sal começou quando descobri que o meu bisavô Woolf Beinart tinha, depois de ter emigrado da Lituânia para a África do Sul, em 1903, montou uma empresa chamada Darling Salt Pans and Produce Co., colecionando e comercializando sal a partir de salinas naturais. Comecei a reparar em referencias ao sal em rituais, memória e preservação em diferentes culturas. Tornou-se um projeto a longo prazo, “Salted Earth”, que pensa o sal como poética da migração e do fazer de um local e faz uma ligação à representação de diversas vozes no processo de regeneração urbana.

Tendo ido viver para Londres, e explorando o Brixton Market, uma área que tem sido um íman e uma âncora para os emigrantes, entrevistei comerciantes que me contaram as suas histórias de emigração, provações e perdas, mas de encontro de um novo lar em Londres. Usando o sal como um índice do comércio e de trajetos de migração do mercado, documentei produtos e gravei narrativas. Um dos comerciantes, José, cujo pai tinha vindo de Portugal, em 1960, estava à frente do negócio da família, contou a estória do bacalhau salgado que vendiam aos portugueses, italianos, gregos e jamaicanos, entre outros. O desvelar da história do bacalhau salgado e da produção de sal levou-me a Portugal e aos mais antigos locais de produção de sal, mercados de peixe e portos de comércio.

Os trabalhos aqui apresentados, realizados através de trabalho de campo em Portugal e em residência artística na Fábrica Braço de Prata em Setembro 2013, são documentos das viagens de mercado em mercado, do passado para o presente e tentativas de captar não só a materialidade, mas também a poética do sal. Uma instalação recria as tecnologias da produção do sal, inalterada durante séculos, convida o espectador a refletir sobre a lenta transformação do processo de evaporação e cristalização – o ciclo de “seca” do sal demora normalmente 6-7 dias. O sal, colhido das Salinas de Aveiro e Figueira da Foz, imiscuem-se com a água recolhida do Tejo.

As fotografias de locais em Aveiro, Figueira da Foz e Rio Maior, foram produzidas usando o papel “salgado”, método inventado por Fox Talbot no final da década de 1830, nos primórdios da fotografia. Experienciamos o sal através do paladar, mas estas imagens oferecem uma nova perspectiva, onde o sal surge tanto como imagem como construtor de imagens. As imperfeições e materialidade do processo analógico fotográfico proporcionam uma reflexão diferente sobre o significado da imagem reproduzida. São documentos das qualidades do material e dos seus poderes, assim como da sua aparência, invocando fortes ligações à memória e à preservação contida na história do sal.

Imagens de slides interligam os peixes salgados e os produtos de peixe no Mercado de Brixton e no Mercado de Ribeira, em Lisboa. Ambos os mercados vivenciam os desafios das mudanças das cidades, estando as vivências e os modos de vida ameaçados.

Finalmente, um pequeno filme documenta os processos de produção de sal nas salinas atuais, em declínio desde o século passado devido aos novos processos de preservação e produção de sal industriais. O filme considera ainda as qualidades poéticas da produção do sal, a lentidão, as tecnologias imutáveis, o ecossistemas e todas as analogias à cultura e migrações. Vozes descrevem as ligações às migrações, estórias de perda e melancolia, evocadas na palavra portuguesa sem tradução “saudade”.

Agradecimentos: Frank Cartledge, João Machado, Cristina , Maria & João Osório, a família Perreira, Ani Teles, Fabrice Zeigler, Camilla Watson, Luís Pavão, Mariana Pestana e a equipa Close Closer.
Este projeto foi apoiado por fundos do Architecture Research Fund of the Bartlett School of Architecture, UCL, do UCL Graduate School Research Projects Fund e do Artists International Development Fund Award do Arts Council England.

English version

Saltworks links migration, regeneration, and memory through the material and metaphorical qualities of salt. Salt is an everyday substance which contains multiple histories, journeys and narratives. Salt links a market in Brixton, London with sites in Portugal including Aveiro, Figueira da Foz and Rio Maior, connecting cultures, and representing the movement of past and present diasporas which formed through trade and migration, and still shape our cities. My fascination with salt began when I discovered that my great-grandfather Woolf Beinart had, upon migrating from Lithuania to South Africa in 1903, set up a company called the Darling Salt Pans and Produce Co., collecting and trading salt from natural salt pans. I began to notice references to salt in ritual, memory and preservation in different cultures. This developed into a long term project, ‘Salted Earth’, which looks at salt as a poetics of migration and place-making, and connects this to the representation of diverse voices in urban regeneration processes.
Moving to London, and exploring Brixton Market, an area which has been a magnet and an anchor for those of a migrant background, I interviewed market traders who told stories of migration, hardship, and loss, but of finding a new home in London. Using salt as indexical to the trade and migration links of the market, I documented products and recorded narratives. One trader, Jose, whose father had come from Portugal in the 1960s, ran the family deli, and told the story of the salt cod they sold to Portuguese, Italian, Greeks, Jamaicans, and many others. Unravelling the history of salt cod and salt production brought me to Portugal, and the ancient sites of salt production, fish markets and trading ports. The works shown here, made through field research in Portugal and a studio residency at Fábrica Braço de Prata in September 2013, documents the journey from market to market, past to present, and attempts to capture both the materiality, and poetics of salt. An installation recreates technologies of salt production, unchanged for centuries, whilst also inviting the viewer to reflect on the slow change of evaporation and crystallization – the cycle of ‘drying out’ salt usually takes 6-7 days. The salt, collected from the salinas of Aveiro, and Figueira da Foz, mingles with water collected from the Tejo.
The photographs, of sites in Aveiro, Figueira da Foz and Rio Maior, are produced using the ’salted paper’ method invented by Fox Talbot in the late 1830s, at the dawn of photography. We experience salt through taste, but these images offer another perspective, with salt as both image and as image constructor. The imperfections and materiality of analogue photographic processes offer a different meditation on the meaning of the reproduced image. They are documents to the material qualities and powers as well as the visual appearance, and they evoke the powerful connections to memory and preservation contained in salt’s history.
Slide images link salt fish and fish products in Brixton Market and the Mercado de Ribeira, Lisbon. Both markets are meeting the challenge of changing cities, as livelihoods, and ways of life, are threatened. Finally a short film documents the processes of making salt today in salinas, one which has seen a huge decline in the last century due to new methods of preservation and industrial production. The film also considers the poetic qualities of salt production, the slowness, the technologies that have not changed, the ecosystems that are supported, and the links to culture and migration. Voices describe links to migrations, stories of loss and longing, evoked in the untranslatable Portuguese word ‘Saudade’.
Thanks to: Frank Cartledge, Joao Machado, Cristina , Maria & Joao Osorio, the Perreira family, Ani Teles, Fabrice Zeigler, Camilla Watson, Luis Pavao, Mariana Pestana and the Close Closer team.
The project is supported by funding from the Architecture Research Fund of the Bartlett School of Architecture, UCL, the UCL Graduate School Research Projects Fund and an Artists International Development Fund Award from the Arts Council England.

Publicado a 8 de Outubro de 2013