18
Nov

SÃO TRINDADE
NEW PLACES, OLD BONES

VPF CREAM ART
Rua da Boavista 84, 2º
1200-068 Lisboa

18 SET – 22 NOV 2014

Viajar é preciso: explorações e descobertas

“Como eu era de rude compreensão e pouco propenso a aprender nos livros, decidi-me a procurar, em pessoa, os diferentes pontos do universo para os admirar com os meus próprios olhos, porque o depoimento de testemunha ocular sempre vale mais do que todas as discussões de quem só ouviu dizer.”

É com este excerto justificativo de Fernão de Magalhães que se inicia o livro de artista que repousa em acordeão na vitrina, ao lado de uma borboleta endurecida, um réptil de seis pernas e um minúsculo pássaro, tudo assemblado com restos de ossos de um qualquer animal cuja identidade já não se descortina. Um cajado e uns binóculos, um livro aberto e um compasso compõe os restantes artefactos neste arranjo para-museológico. Tudo objectos da viagem, objectos para a viagem, que repousam nesta vitrina junto ao nome da exposição: New places, old bones. Com ossos velhos se constroem novas formas, basta um re-arranjo, basta querer viajar e ver, “admirar com os próprios olhos”.
É também nos novos lugares que iremos encontrar questões antigas. O desejo do Outro permeia todas as viagens, mas nestas imagens não há um Outro concreto, em todas elas o explorador está sempre sozinho, como se fosse a si mesmo quem ele pretende encontrar, e para se encontrar tem que procurar o que está fora de si, por isso o deslocamento físico, o deslocamento temporal.

Voltar atrás, à origem da viagem, à procura do esqueleto, daquilo que está no interior e que nos dá forma, daquilo que nos faz caminhar. Espaço e tempo, escalas e épocas, confluem em registos fotográficos onde se reconciliam o objecto e a imagem.
Um lado plástico está presente nesta exposição, facto que vem permeando o trabalho fotográfico de São Trindade. A dimensão da pintura toca os registos quase microscópicos que compõem a primeira sala da exposição. Neste grupo de imagens, São Trindade trabalhou directamente sobre o negativo e apresenta-nos o que poderiam ser lamelas de um mundo que se passa numa outra escala. As manchas expandiram-se, as texturas tornam-se transparentes. Alguns dos negativos são médio formato (6×6), mas outros não têm tamanho standard, por isso a variação nos formatos das imagens apresentadas. Estas fotografias são feitas com os materiais da fotografia, têm a luz da fotografia, mas derivam de um processo que toma o suporte como se fosse papel. É no reconhecimento das ampliadas formigas que identificamos aquelas imagens como fotografias de algo concreto e não apenas formas abstractas. Aquele mundo diminuto existe, é turvo, colorido, texturado, e coaduna-se com uma certa imagem que temos da representação microscópica.
Em New places, old bones estão em jogo as escalas e os tempos do ver: o diminuto imperceptível ao olhar desarmado, o percurso do explorador, fazedor de verdades, invisível ao espectador. Os interstícios da viagem, da exploração, os momentos off que não aparecem na fotografia-troféu: a pausa do cigarro, o repouso do esqueleto numa banheira doméstica, o transporte do espécimen por um subúrbio qualquer. São Trindade “decidiu-se a procurar, em pessoa,” o que fica oculto no meio desse processo de descoberta, os momentos escondidos antes da representação oficial.
E o espectador também viaja. A nossa tentativa de descortinar o processo de produção das fotografias coloridas; o tentar identificar a que animal pertencem aqueles ossos; que terras reais se escondem sob as terras pintadas no mapa das descobertas; em que duna é que passeia a artista vestida de explorador colonial… As imagens têm referentes que nos são familiares, no entanto, elas interpelam-nos e desafiam-nos a ver o que se esconde na feitura de uma verdade.
Ao entrar na segunda sala, olhamos de frente um mapa intitulado “As grandes explorações e descobertas”, que foi pintado de tal maneira que os territórios representados se transformaram numa massa orográfica não identificável. Têm a cor da terra e têm o azul da água, mais um deserto amarelo que traça o seu contorno, mas no conjunto são só reconhecíveis como um mapa em abstracto. Apesar de descobertas e exploradas, estas terras são terras que não se chegam a conhecer. São continentes para a imaginação.
E por mais que viajemos, seremos sempre nós.

Liz Vahia

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[A autora escreve de acordo com a antiga ortografia]

Publicado a 18 de Novembro de 2014