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PLATAFORMA REVÓLVER PISO2
OS CULTUROFAGISTAS
Curadoria | Ana Fonseca e Mara Castilho

Artistas | Ana Fonseca, Gabriela Gusmão, Gustavo Nóbrega, Mara Castilho, Márcio Botner & Pedro Agilson, Rosana Ricalde, Sara & André

O poeta declarou “A minha pátria é a língua portuguesa”, e o cantor, do outro lado do Atlântico, acolheu esta ideia de braços abertos.

Os Culturofagistas é um projeto entre artistas Portugueses e Brasileiros que aqui toma a forma de uma exposição ancorada na celebração de uma língua comum através da sua poesia. O cais de partida são letras de Samba e Fado, expressões vivas do património imaterial intrínseco a cada um destes dois povos. Os artistas foram convidados a revisitar a sua própria língua e a proceder à criação de uma obra original a partir de um poema musicado.

Ao despojar as letras de suas vestes musicais, sublinha-se a criação poética e camuflam-se as origens, semeando um certo distúrbio sobre a sua proveniência. Um certo espírito de Babel: dificilmente se saberá quais os objetos artísticos que se baseiam num Fado e quais os que se inspiram num Samba.

Certo é que todos celebraram uma língua comum e duas expressões musicais de riqueza ímpar, ambas reconhecidas pela UNESCO como património imaterial da Humanidade.

Apoios: Ministério da Cultura (BR), A Gentil Carioca (BR), 3 + 1 Galeria (PT), Força Motriz (PT), Eforgest (PT)

Publicado a 1 de Junho de 2012

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O PESO E A IDEIA

PLATAFORMA REVÓLVER (Piso 1)

Ana Fonseca, Bryn Chainey, João Ferro Martins, Nuno Vicente, Orlando Franco, Samuel Rama, João Pombeiro, Ricardo Quaresma Vieira, Marisa Benjamim, Rita Firmino de Sá, Rodrigo Bettencourt da Câmara, Vítor Reis, Susana Anágua, Ruth Le Gear, Sara Wallgren

Curadoria | Orlando Franco e Nuno Vicente

A ideia parte do questionar um objecto/obra a partir das suas principais premissas existenciais: a forma e o conceito. Na sequência disso, e a partir de uma intenção de discutir estas premissas, Orlando franco e Nuno Vicente principiaram numa problematização entre a dimensão física e conceptual de uma obra, por um lado, no entendimento plural desta dicotomia, por outro, a forma como esta é entendida na singularidade de cada artista.
De modo rizomático, os artistas surgem no seguinte contexto como o resultado duma aproximação de vários pensamentos, operado sob a velha formula da empatia e da admiração mutua, quer umas vezes, pelo trabalho, quer outras pela sua postura. Tautológico, foi a constatação por parte dos artistas que na arte existe a oscilação de um binómio constituído pela forma e o conteúdo da obra, uma premissa básica e suficientemente abrangente para conveniência ou urgência de um mote institucional que possa ditar a conexão dos vários artistas em exposição.
A constituição de um catálogo é à parte com a exposição, o momento procurado pelos artistas como possibilidade de expressão, operado de modo múltiplo e onde cada um dos intervenientes irá falar de modo aberto através de um texto, sobre a intenção artística, mais do que sobre os seus trabalhos, apresentando seus pontos de vista e o que deveria para cada um ser a arte e a sua direcção.

Publicado a 20 de Abril de 2012

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OBJET TROUVÉ

PLATAFORMA REVÓLVER (Piso 2)

Pedro Telmo Chaparra, Miguel Faro, Alexandre A. R. Costa, Biana Costa, Teresa Forbes, Javier Núñes Gasco, André Graça Gomes, Stefan Kornacki, Dominik Lejman, Melanie Manchot, Régis Perray, João Ribeiro, José Eduardo Rocha, André Teles.

Curadoria | Mário Caeiro

Objet Trouvé. A cidade é um cadáver esquisito.

OBJET TROUVÉ é a segunda de uma série de exposições dedicadas ao objecto do ponto de vista da ética da arte pública. A primeira exposição – OBJET PERDU – manifestou aspectos críticos da produção objectual face ao regime da arte contemporânea: o valor da imponderabilidade no processo colaborativo, o dinamismo da interligação entre os níveis da representação e da reflexão ou, finalmente, a multivocidade da acção artística no quotidiano. Na trama de argumentos, conforme concretizada na modalidade do dispositivo expositivo, a noção de perda constituiu o leit motiv para relacionar a produção artística com um certo distanciamento dos criadores face às narrativas culturais e ideológicas, mormente a própria ‘arte’.

Em 2012, este padrão de reflexividade, típica da arte crítica, desenvolve-se, ironicamente, no sentido do reencontro com o objecto. OBJET TROUVÉ reúne treze artistas cujos trabalhos contribuem para uma perspectiva multidimensional da vida colectiva, enquanto lugar-objecto de redenção social. Num encontro tão frágil e efémero quanto fulminante, e independentemente das estratégias de representação e interacção estética em causa, a ideia de palimpsesto enquadra esta emergência de uma forma social de que todos somos personagens à procura de um autor. Tal formação é historicamente uma deriva utópica, motivada por carências pedagógicas e terapêuticas (como na Bildung romântica). Na tradição da arte como techne, trabalho sobre as formas nas coisas, redunda num ethos que acarreta escolhas ao nível do dispositivo plástico e projectual. Os objectos tornam-se então testemunhos das acções que os definem; mas genuinamente graciosos apenas quando encontro com o outro e com o social, compassivamente.

Em OBJET TROUVÉ, este jogo crítico da inscrição do poder da arte continua a assentar na possibilidade da concreção objectual. Não como na praxis surrealista (reduzida pela história a uma linguagem), mas algures entre a noção mundana da trouvaille, o motivo processual da serendipidade e o desejo meta-comunicacional do aforismo. Em tempo de sound bites e verdades extremamente residuais, e face ao estertor tanto da reflexão política como do modelo de produção industrial, será que a discreta auto-contenção destas obras, fruto da distanciação dos autores para com as narrativas colectivas dominantes, não poderia ser vista como uma moral transparente da arte como tradição superada?

No quadro confinado dos espaços galerísticos, estas questões têm-se traduzido em práticas relacionais, nem sempre o discurso indo ao encontro de uma experiência produtiva do sublime. Daí a relevância de uma arte que traduz em luminosos encontros estéticos os sentimentos que mais fundamente motivam o devir da cidade, esse palimpsesto urbano violentamente descontrolado que entretanto se constitui como imagem representativa da nossa espécie e suas formas de habitar. Ao mesmo tempo, essa arte – transmissão de memória, vislumbre de possíveis, resiliência da polis – é antes do mais um modo produtivo de ir ao encontro do(s) objecto(s), experimentando mecanismos de jogo e acção, de encenação ou afastamento, explorando toda uma gramática da consciência e em particular a do efémero específico da condição artística no socius. Só que então, se a cidade é ela própria o objet trouvé destas práticas de apropriação e análise, não seremos nós próprios sucessivos ready mades (cada vez menos energéticos?) e a cidade o nosso museu, pejado de objectos perdidos e encontrados? A cidade é um cadáver esquisito.

Mário Caeiro
Lisboa, 2012

Publicado a 20 de Abril de 2012

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By transboavista at 2011-12-05

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SUBTLE CONSTRUCTION

Carlos Bunga, Matias Machado Cristian Rusu, Sancho Silva, Yukihiro Taguchi, Sinta Werner

Curadoria Marta Jecu

A exposição Subtle Construction tem como objectivo explorar as potencialidades do espaço construído, da construção na sua forma minimal. Esta exposição representa uma tentativa de investigar a arquitectura transformável. Terá em consideração as qualidades flexíveis, performativas e generativas da arquitectura. O projecto parte do entendimento que a arquitectura que não está ligada a um certo aparelho de mediação ou forma visual. É concentrado na arquitectura efémera e em formas transitórias dos processos de construção.
Os artistas envolvidos trabalham com o espaço, a ausência, temporalidades sobrepostas e configurações espaciais, numa pluralidade de meios, tais como o desenho, a instalação, a performance e a animação de objectos. Os trabalhos estão ligados ao espaço vazio, à ausência de acção e narração, o outro lado da visibilidade. Tornam assim possível a experiência de uma dimensão virtual dos seus ambientes, trazendo à consciência potencialidades não manifestadas de locais, situações e objectos. Estes tornam-se actuais, experimentáveis, através do complexo processo de construção, no qual o artista actua, documenta e reencena.
Subtle Construction propõe uma investigação sobre as possibilidades contemporâneas da realização do virtual, a qual não depende de meios digitais, mas que acarreta a consciencialização filosófica da era digital. As construções resultam de processos que sobrepõem espaços e varias temporalidades com modos básicos e extremamente minimais de lidar com o espaço e o objecto. Todos os trabalhos têm em comum a preocupação com a representação analítica do espaço e uma abordagem do quotidiano que está próxima dos receptores e interage com estes processualmente. A performatividade, pela sua afirmação natural e forma de expressão de situações e ambientes é entendida como activa, trazendo movimento ao espaço e gerando um processo de transformação. As obras são mediações da presença histórica, padrões de representação, de teatralidade, trazendo um registo de intensidade na arquitectura.
É parte integrante da exposição Subtle Construction a escultura performativa de Hironari Kubota, The spinning idol ~ ???? Senjyu-Kannon. A performance será realizada no dia 15 e 19 de Novembro e a peça continuará em exposição até dia 31 de Dezembro no Jardim das Oliveiras, no CCB, com o apoio do Museu Colecção Berardo.
Subtle Construction conta também com um livro teórico (Bypass Editions) dedicado ao virtual e ao imaginário na arquitectura, com as contribuições de Luis Santiago Baptista, Sancho Silva, Manuel Aires Mateus, Carlos Bunga, João Silvério, Pedro Gadanho, Sinta Werner, Dana Bentia, Matias Machado, Garrett Ricciardi e Julian Rose, Yukihiro Taguchi, Cristian Rusu, Hironari Kubota.

Apoios: Japan Foundation, Câmara Municipal de Lisboa, Romanian Cultural Institute, Goethe Institute, Gamut, Largo Residências, Plastimar, Museu Colecção Berardo, Turismo de Lisboa, Embaixada da Argentina, Plataforma Revólver,Artecapital.net, Sobreira & Serras, Arta.

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SUBTLE CONSTRUCTION

curator Marta Jecu

Carlos Bunga, Matias Machado, Cristian Rusu, Sancho Silva, Yukihiro Taguchi, Sinta Werner

The exhibition S u b t l e C o n s t r u c t i o n is meant to explore the potentialities of built space and to investigate transformable architecture. It will take into consideration the flexible, performative and generative qualities of architecture. The project has a starting point an understanding of architecture that is not connected to a certain medial device or visual form. It is concentrated on ephemerous architecture and transitiory forms of building processes. The artists involved work with architectural space in a plurality of media like drawing, installation, performance, animation, object. The works deal with empty space, absence of action and narration, the reverse side of visibility. They make possible the experience of a virtual dimension of their environments by bringing into consciousness unmanifested potentialities of places, situations, objects. These become actual, experienceable, through complex building processes, which the artist perform, document, re-enact.
S u b t l e C o n s t r u c t i o n intends to propose an investigation of contemporary possibilities of realization of the virtual, which is not dependent on digital means, but which carry the philosophical awarenesses of the digital era. Constructions result from processes that superpose spaces and various temporalities with extremely minimal, basic modes of dealing with space and the object. All the works have in common a concern with an analytical representation of space and a quotidian approach, that is close to the receptors and interacts with them processually. The performativity, by which the natural affirmative, expressive power of situations and environments is perceived as active, brings movement into space and generates transformation process. The works are meditations on historical presence, patters of representation, on theatricality, and bring a register of intensity in architecture.
As part of Subtle Construction is also the performative sculpture of Hironari Kubota The spinning idol ~ ????Senjyu-Kannon which will be performed on the15th and 19th November and shown until the 31st of December 2011 in the CCB Olive Tree Garden and is supported by the Berardo Collection.
Subtle Construction issues also a theoretical book issued by Bypass and devoted to the virtual and the imaginary in architecture, which benefits of the contribution of Luis Santiago Baptista, Sancho Silva, Manuel Aires Mateus, Carlos Bunga, Joao Silverio, Pedro Gadanho, Sinta Werner, Dana Bentia, Matias Machado, Garrett Ricciardi and Julian Rose , Yukihiro Taguchi, Cristian Rusu, Hironari Kubota.

Sponsors and Partnerships:
The Japan Foundation, Câmara Municipal de Lisboa, Goethe Institute, Romanian Cultural Institute, Museu Colecção Berardo, Plastimar, Largo Residencias, Gamut, Turismo Lisboa, Embaixada da Argentina, Transboavista, Sobreira & Serras, Plataforma Revolver, Arta

Publicado a 2 de Dezembro de 2011

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URBSCAPES:Espaços de hibridação

Curadoria Alicia Ventura

Bleda y Rosa (Prémio Nacional de Fotografia de Espanha), Gerardo Custance, Rafael Liaño, Anna Malagrida e Mathieu Pernot, Ángel Marcos, Mireya Masó, José María Mellado, Eduardo Nave, Jesús Rivera, Adrian Tyler e Jorge Yereguiv

A paisagem submete-se à arquitetura. O homem, como animal urbano, apropria-se da natureza, impondo-lhe formas, estruturas, movimento, som. Urbscapes: Espaços de Hibridização, mostrará a obra de diferentes artistas fotógrafos cujos trabalhos estão relacionados com a paisagem e a arquitetura partindo de uma visão linear do tempo, onde coexistem o natural e o edificado. A exposição analisa as intenções e intervenções que se foram sucedendo na paisagem nas distintas escalas do território, sem esquecer as propostas líricas que saboreiam o aroma da paisagem com outros parâmetros.
Representações da destruição da paisagem e sua própria desnaturalização, a marca da transformação urbana dos bairros, uma cidade fantasma capaz de conservar uma última presença das vidas e das histórias, mesmo antes da sua definitiva desaparição. Lugares míticos que construíram a nossa história e que agora se presentam como aprazíveis campos de cultivo ou desertos rochosos. Reflexões sobre o mutismo e a mutilação que parte da vulnerável relação vital entre o homem e o seu ambiente natural. Retratos da ausência de vida como um chamar de atenção e cuidado face ao ecossistema. Melancolia face à velocidade que caracteriza a sociedade atual. A colisão entre a paisagem urbana e a rural. A reconstrução do ambiente urbano e a Natureza como paisagem. A presença natural nas cidades. A divulgação do pensamento sustentável e da proliferação de discursos respeitosos com o medio ambiente. A dominação da natureza selvagem sobre o abandono e o devir histórico. É a presença visível da mudança.

A chegada da fotografia e a sua utilização como linguagem artística e profissional serviu, entre outras muitas coisas, para alterar definitivamente a ideia de género da paisagem. Se na pintura clássica o género reflecte tímida e escassamente a criação e evolução da cidade, a fotografia encarregar-se-á de reclamar esse modelo de mudança, diferente. A cor, a ideia canónica de beleza ver-se-á assim alterada pela chegada de uma grande variedade de conceitos estéticos nos quais o ressurgir da arquitectura será um elemento chave. O branco e preto e os cinzentos, as luzes e as sombras, a ausência de pessoas, o protagonismo dos edifícios civis, a ideia de paisagem como linha de edifícios… Hoje em dia é a fotografia a que evolui e explora um género que já é uma ideia: a paisagem.

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URBSCAPES: Espacios de hibridación

Comisaria Alicia Ventura

Bleda y Rosa, Gerardo Custance, Rafael Liaño, Anna Malagrida y Mathieu Pernot, Ángel Marcos, Mireya Masó, José María Mellado, Eduardo Nave, Jesús Rivera, Adrian Tyler, Jorge Yeregui

El paisaje se pliega a la arquitectura. El hombre, como animal urbano, se apropia de la naturaleza, imponiéndole formas, estructuras, movimiento, sonido. Un puente, una carretera, un edificio, un jardín, circuitos, llegando al paradigma final que es la propia ciudad.
La cultura cambia, cambian los medios técnicos, las relaciones con las formas físicas del territorio adecuándose a la necesidad e interés de los hombres en cada momento. Al hecho, por una parte, de estar el espacio “físicamente construido” y de las necesidades biológicas universales. Quizá esto sea lo que necesitamos reconocer como condiciones básicas primarias para escuchar al paisaje.
La llegada de la fotografía y su uso como lenguaje artístico y profesional ha servido, entre otras muchas cosas, para cambiar definitivamente la idea de género del paisaje. Si en la pintura clásica el género refleja tímida y escasamente la creación y evolución de la ciudad, la fotografía se encargará de reclamar para ella ese modelo cambiante y diferente. El color, la idea canónica de belleza se verá así alterada por la llegada de una gran variedad de conceptos estéticos en los que el resurgir de la arquitectura será un elemento clave. El blanco y negro y los grises, las luces y las sombras, la ausencia de personas, el protagonismo de los edificios civiles, la idea de paisaje como línea de edificios… Hoy en día es la fotografía la que evoluciona y explora un género que ya es una idea: el paisaje.

Urbscapes: Espacios de Hibridación, mostrará la obra de diferentes artistas fotógrafos cuyos trabajos están relacionados con el paisaje y la arquitectura partiendo de una visión lineal del tiempo, en donde coexisten lo natural y lo edificado. La exposición trata de analizar las intenciones e intervenciones que se han ido sucediendo en el paisaje en las distintas escalas del territorio, sin olvidarse de aquellas propuestas líricas que saborean el aroma del paisaje con otros parámetros.
Representaciones de la destrucción del paisaje y su propia desnaturalización, la huella de la transformación urbana de los barrios, una ciudad fantasma capaz de conservar una última presencia de las vidas y las historias justo antes de su definitiva desaparición. Lugares míticos que han construido nuestra historia y que ahora se presentan como apacibles campos de cultivo o yermos pedregales. Reflexiones sobre el mutismo y la mutilación que parte de la vulneración de la relación vital entre el hombre y su entorno natural. Retratos de la ausencia de vida como reclamo de atención y cuidado hacia el ecosistema. Melancolía frente a la velocidad que caracteriza a la sociedad actual. La colisión entre el paisaje urbano y el rural. La reconstrucción del entorno urbano y la Naturaleza como paisaje. La presencia natural en las ciudades. La divulgación del pensamiento sostenible y la proliferación de discursos respetuosos con el medio ambiente. La dominación de la naturaleza salvaje sobre el abandono y el devenir histórico. Es la presencia visible del cambio.

Publicado a 2 de Dezembro de 2011

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PANÓPTICO
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PANÓPTICO

Curadoria Pedro Cabral Santo

Ariel Pinheiro, Patrícia Guimarães, Ana Sofia Martins, Miguel Faro, Ana Viotti, Sibila Lind, Tiago Gonçalves, Carlos Amaral, Carolina Ferreira, Catarina Ruas, Darsy Fernandes, Nikita Novitsky, Inês Ferreira, Sofia Caldeira, Carolina Soares, Maja-Escher

Ser finalista é ter chegado ao limite de um território, ter atingido uma meta ou, ainda, como diz o dicionário, “ter atingido a parte mais perfeita de alguma coisa”. Hoje é esse o sentido mais legítimo da perfeição: acabar aquilo que se começou atingindo a perfeição das coisas na certeza da sua incompletude, da sua contingência e da sua circunstância. Os objetos perfeitos que daí resultam aí estão, oferecidos como espetáculo, i.e., encenados na teatralidade que os dá a ver como objetos que se mostram à visão num lugar que é, antes de tudo, um instrumento visual.
Situados na convergência do exercício da teoria e do olhar a que ela alude (porque na cultura ocidental todo o conhecimento nasce e estrutura-se no ato de ver), e da sua aplicação prática que fixa numa imagem aquilo que se observou, estes objetos dão-se a conhecer sob o conceito de panóptico que os finalistas decidiram como figura tutelar da sua exposição. E sabemos como o panóptico sendo, na leitura de Foucault, a “figura arquitectural” que Jeremy Bentham inventou no século XVIII como modelo de prisão, mais não é do que um dispositivo que permite “ver sem parar e reconhecer imediatamente”. Este dispositivo (esta “armadilha da visibilidade” como o designa Foucault) marca duplamente uma separação: a de um interior – lugar onde são exiladas todas as diferenças – e um exterior – lugar onde é exercido o poder de as exilar e a de uma separação que, fundada no próprio ato de ver e na distância que ele implica, instaura uma fractura que quebra a reversibilidade do próprio olhar porque ou se vê sem nunca ser visto ou se é visto sem nunca ver, na definição de um novo regime de visibilidade no qual a condição de ser visível se torna o programático objecto de uma invisível vigilância exercida já não sobre a comunidade abstratamente considerada mas sobre um indivíduo concretizado na visão que o vigia.
Este é o cenário conceptual da exposição deste grupo de alunos finalistas da primeira edição da licenciatura de Arte Multimédia estruturada segundo as diretivas de Bolonha, cujo início teve lugar no ano lectivo de 2008-2009 permitindo, nos dois últimos anos, e depois de um primeiro ano comum, a opção por uma das variantes do curso: Ambientes Interativos, Animação, Audiovisuais, Fotografia e Performance/Instalação.

É nesses domínios que as obras expostas se inscrevem, sendo eles que se iluminam com a sua presença que é afinal a presença da perfeição do humano na certeza da sua incompletude, da sua contingência e da sua circunstância.
Em Cicatriz, Carlos Amaral faz da pele fotografada, não um lugar de inscrição, mas o ecrã onde as marcas agora luminosas nos devolvem o informe que sob ela existe e onde, de acordo com Valéry, o humano se suspende. Nas seis imagens de Desconstrução, Catarina Ruas trabalha a relação entre um original e as suas reproduções a partir de um duplo conceito de vazio: o que a sua proliferação provoca e o que decorre do desinvestimento afectivo presente no ato que delas se apropria. Aqui Dentro é a animação em que Darsy Fernandes e Nikita Novitsky contam a história de um rapaz que viaja pelo seu passado nele descobrindo o impossível equilíbrio entre o seu mundo interior e o mundo existente fora de si. O video Reflexo Reflectido, de Miguel Faro, mostra à escala real a interacção entre uma imagem e o seu reflexo e a porosidade espacial que as define sempre que é ameaçado o frágil limite que as separa. Na animação Sem-título, de Patrícia Guimarães, uma mulher e um homem feitos de carne comem(-se) antropofagicamente a matéria do seu próprio corpo. Através da animação do positivo e do negativo de três quadrados, Tiago Gonçalves explora, em Loop, o compromisso entre o movimento potencial da peça e a reminiscência do movimento que a constrói por acção de um sujeito. Na instalação Lavadeiras, Ariel Pinheiro figura no sabão azul e branco e no cheiro que ele exala a delicadeza de um feminino tradicionalmente associado à lavagem da roupa. Na vídeo-instalação Ponto de vista. Ponto de fuga, Carolina Soares demonstra a ontologia e a reversibilidade da imagem, sempre confundida com o feminino, a partir da sobreposição entre o ponto de vista, o ponto de fuga e os clarões luminosos que intermitente e momentaneamente a apagam. Dada Excites Everything, de Sofia Caldeira, é uma animação onde o movimento, jogado em ambíguas referências entre as quais se inscrevem os postulados dadaístas, gera sequências visuais que escapam à tirania da imobilidade da razão. Na série de fotografias intitulada Aus! Ich bin Josefina, Sibila Lind faz coincidir o retrato de uma mulher com o retrato do lugar de uma ausência que ela insiste em habitar através do seu corpo que recorda. A partir da observação das estufas e das estruturas das hortas urbanas de Londres, cidade em que viveu no âmbito do programa Erasmus, Maja Rieger, na instalação Compressed Nature, questiona o fenómeno urbano contemporâneo na medida do cerco que ele impõe a uma Natureza sempre disposta a cooperar.

Dias de Cão é o título encontrado por Inês Ferreira para o conjunto de fotografias tipo-passe que, despojadas do artifício da fotogenia, aludem aos dias que passam na clausura do auto-retrato. No vídeo How long Have I been here, Ana Sofia Martins faz depender a identidade e a sua perda iminente da não linearidade do tempo e da memória e da impossibilidade de retorno que se instala no vazio que o som da peça paradoxalmente sublinha. Na animação que Carolina Ferreira desenvolveu no Brasil no âmbito do programa Erasmus, O Tucano do Morro da Batucada é simultaneamente o personagem em que a natureza delega a celebração da sua exuberância e o signo da presença de uma cultura indígena na língua brasileira. Na série de fotografias Tempo-corpo, Tempo-máquina, Ana Viotti faz de uma cadeira o palco onde o corpo oscila entre a representação da mecanicidade do tempo e a sua organicidade.
Um número quantifica e identifica. Como os números de polícia que nas ruas identificam as casas e cujo princípio é seguido na ordenação dos números das portas nas salas de todas as escolas ou como os números que nas estatísticas oficiais quantificam o insucesso ou o sucesso escolar. 3.07 foi o lugar de muitos encontros e, neste contexto, tornou-se o lugar dessa memória, como o entende Pierre Nora, feito de lembranças e esquecimentos cristalizados em documentos e monumentos. Mas é também um lugar na memória, no sentido que para ele encontra Hans Belting, que é o do lugar como dispositivo ao qual eles voltam para poderem continuar a existir. É nesse lugar que eu vejo e oiço ainda estes e outros alunos; é daí que, em meu nome e em nome de todos os docentes que com eles trabalharam, lhes agradeço o seu sucesso, desejando que continuem a saber ser aquilo que foram na sua passagem pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Desejando sobretudo que cada um deles possa encontrar e exercitar a sapiência tal como Roland Barthes a definiu no fim da sua lição inaugural no Colégio de França: “Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível”.

Maria João Gamito

Publicado a 2 de Dezembro de 2011

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“O viajante, no seu movimento incessante, vê tudo à distância. Silhuetas recortadas contra a paisagem. Imagens arquitecturais se destacando no horizonte. Pessoas e lugares que pretende encontrar depois da próxima curva. A viagem é produção de simulacros, de um mundo puramente espectral erguido à beira da estrada.”(1)

“Será que o drama contemporâneo não vem do fato de que o desejo de errância tende a ressurgir como substituição, ou contra o compromisso de residência que prevaleceu durante toda a modernidade?” (2)

Em registo fotográfico, presentificam-se as imagens de existências, encenações e/ou simulacros com tópicos de genuinidade. Assim se demonstram subjetividades de autores nos territórios estéticos da fotografia.
Numa fotografia, supostamente, congela-se o tempo e o espaço. Congelam-se as figuras individuadas no tempo pois deixam de ser pessoas e talvez sejam, transitoriamente, personagens. Estas localizam-se ou ausentam-se, consoante os casos e as estratégias estéticas dos autores. Inequívoca é a decisória presença do fotógrafo-viajante, aquele que concretiza acto e obra. Não é verdade?

“Em minha opinião, não há nenhum [caminho] mais atraente do que andar no encalço das próprias ideias, tal como o caçador persegue a caça, sem procurar manter um dado caminho.” (3)

O próprio fotógrafo-viajante torna-se visível – em proposição de autorretrato – ou oculto, consoante sua intencionalidade ou desejo. Mas é a sua afirmação de sujeito/agente artístico que determina a produção das fotografias que o “antecedem”, o estimulam e o acompanham a posteriori. Através do seu ato, que concebe e concretiza obra, mantém laços com as imagens fotográficas, conferindo-lhes – ad simultaneum – autonomia e projeção. Os fotógrafos-viajantes cativam pessoas e lugares, convertendo-os, respetivamente, em figuras/personagens e em paisagens.

“A paisagem não se entrega. O que você vê não se fotografa.” (4)

As paisagens, com alguma frequência, correspondem a tempos de respiração, quer do pensamento, quer da ação/atividade do fotógrafo. O ritmo da viagem decide os intervalos na paisagem, as consequências de sobrevivência de ideias ou de substâncias. Fragmentos, parcelas ou secções presidem às escolhas espontâneas ou morosamente destinadas pelo autor em jornadas, caminhadas e transportando-se. O veículo em que desloca condiciona o ritmo da captação de imagens; os momentos em que dispõe uma paragem ou a continuidade do seu movimento. As tomadas de vistas são distantes, conforme o viajante as realiza enquanto condutor de um automóvel (p.ex.) ou não. Assim, está-se perante tomadas de vista com ponto de fuga numa estrada ou encarada na lateral, esperando aquilo que se vai descortinando. Se a deslocação ocorre num comboio, a ambiguidade relativa entre a paisagem (aparentemente em movimento) e a ilusão hierática do viajante, gera imagens de uma cativação insustentável e precária. A paisagem que é consequente da mobilidade da viagem anatomofisiológica assume pressupostos diferenciados de uma viagem de indexação psicofisiológica…e assim por diante. A viagem preenche, recheia ou esvai a paisagem, propiciando uma reentrado no si mesmo do fotógrafo-viajante:

“A paisagem em volta esvaziada de sentido, reflectindo-se nos meus olhos, brotava dentro de mim…” (5)

Definitivamente as pessoas alocam-se a lugares – mesmo que estes se possam configurar, teoricamente, enquanto “não-lugares” (seguindo Marc Augé) e, consequentemente, os espaços efetivos transcendem o tempo real, expandindo-se e adquirindo uma simbologia transfiguradora – independentemente de seu índice ou percentualidade documental.

“Julgamos que nos libertamos dos lugares que deixamos para trás de nós. Mas o tempo não é o espaço e é o passado que está diante de nós. Deixá-lo não nos distancia. Todos os dias vamos ao encontro daquilo de que fugimos.” (6)

Seja um deambulador, flâneur, Wanderer, peregrino, caminhante… et allie… uma qualquer, entre as distintas tipologias de viajantes…os fotógrafos asseguram para nós a autenticidade, tanto quanto nos garantem uma gestante ilusão. Marcam, estipulam ou estabelecem com rigor – que pode oscilar entre o topográfico e o metafísico – lugares e territórios específicos, onde as confluências de imaginário e real definem o humano, onde paisagem e natureza entrelaçam vidas.

* Ainda para ti, passeante dileto no mundo.

(1) Nelson Brissac Peixoto – “Miragens”, Cenários em ruínas – a realidade imaginária contemporânea, Lisboa, Gradiva, 2010, p.137
(2) Michel Maffesoli, Sobre o Nomadismo, Rio de Janeiro, Record, 2001, pp.23-24
(3) Xavier de Meistre, Viagem à roda do meu quarto, Lisboa, & etc, 2002, p.25
(4) Bernardo de Carvalho, Mongólia, São Paulo, Companhia das Letras, 2003, p.41, p.115
(5) Yukio Mishima, O templo dourado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1985, p.148
(6) Carlos Drummond de Andrade – “Mãos dadas”, Antologia Poética, Lisboa, Dom Quixote, 2002, p.149
(7) Raymond Depardon, Errance, Paris, Seuil, 2000, p.56.

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“Dans un voyage, on évolue, on change, on se transforme. Et souvent, on rentre et out est annulé par le retour. » (1)

Agosto de António Júlio Duarte resultou de um percurso, curiosamente, desenvolvido em Portugal, se atendermos às latitudes e longitudes das viagens do autor que, com maior frequência, o conduzem pelo Oriente e aí o estabilizam por períodos de duração significativa.

“O vazio “em si” e em conotações, o “nada”, o branco, o espaço em branco, o silêncio, a pedra, a impossibilidade, a solitude, o desconhecido, as potencialidades, etc. e seus valores criativos na filosofia e na estética do extremo oriente (e comparativamente, alhures).” (2)

O display em dípticos orienta o meu olhar as dicotomias, ambiguidades e/ou consolidações, evidenciáveis durante uma viagem. A força de um rosto, a morfologia de elementos afastados ou próximos ao espectador propiciam um jogo quase de cena (parafraseando o título do filme de Eduardo Coutinho). Entenda-se, a flexibilidade manifesta no acto de recepção estética, gerida pela efabulação perceptiva-afectiva-conceptual, pertença de cada um, exercendo sua identidade pessoal sobre o produto de artístico de outrem – interpretação falar-se-á, mas não apenas…Assim, sabe-se que a definição imaginal de díptico conduz a um “diálogo do visível”, parafraseando René Huyghe, pois o confronto de referenciais “identificados” (diferente de se saberem “reconhecidos” ou “parecidos”) é pura sedução e volúpia para as relacionalidades ressaltarem. As notas identitárias patentes em cada uma das unidades que constituem os 15 dípticos abordam elementos visuais que cativaram pessoas, objetos, fragmentos de paisagem; oscilando entre o afastamento do “alvo” fotografado e sua proximidade; propondo reconhecimentos ou conduzindo para equivocidades percetivas visuais, ricas em pensamento e afeto. É inevitável a emergência de certa avidez para “reconhecer”, de buscar o parecido dentro dessa caixa de memória (desse arquivo mental/imagético) que cada espectador transporta em si; é acto intuitivo, semi-inconsciente e/ou implícito na “apropriação estética” que advém das fotografias enquanto tal.

A vasta obra de fotografia de Caio Reisewitz organiza-se em séries específicas, refletindo uma identidade documental que se apropria da paisagem, plasmando-a em imensidão que estreita a alma do autor com os espectadores. A dimensão sublime que se desprende de suas fotografias é de uma evidência subjetivante e, em simultâneo, glosando os parâmetros conceituais que Kant, depois de Edmund Burke, soube definir. Sublime dinâmico e sublime grandioso (ou matemático) pontuam, nalguns casos uma mesma imagem, noutros um privilegia e expande-se sobre o outro. Mamangua enfrenta aquele que vê e sabe contemplar, demorando-se na paisagem adentro. À semelhança de outras séries do fotógrafo, o elemento| matéria dominante é a água, estabilizando o recorte, na vegetação, através de uma afirmação “terra” que nos lembra as reflexões sobre a imaginação poética desenvolvida por Gaston Bachelard. Mas a dominante, no caso da fotografia de grande formato, presente nesta mostra é a água. A água tranquila e parada que não se confunde com estagnação numa acepção castradora ou à qual esteja arredada a vida pulsátil. Seria impossível não associar as significações matriciais que, com frequência, reverberam no respeitante a este elemento (em termos cosmogónicos e cosmológicos). Mas, a imagem ultrapassa mais e mais, assegurando uma experiência estética única para cada um, quanto sabemos seja um dos tópicos adstritos a definição de sublime. A presença do espetador ausenta-se num mundo onde evanescência e lucidez são cúmplices; onde a dimensão estética, a artisticidade é a efetividade imprescindível de uma natureza consciente e em causa sócio-cultural. A correnteza que se queda muda, expondo em visbilidade o silêncio, atinge o âmago de uma memória circular filogenética, quanto também ontogenética. O espelho de água absorveu a ausência ou a presença do humano, desde os tempos primordiais: nós ficamos nesse tempo de suspensão, interpelados e vigiando para que o mundo seja um Cosmos ordenado e redimido de ações irreversíveis.

My Unknown friends e Fotografados, todas as presentificações pessoais que Cristina Ataíde cativou durante uma de suas muitas permanências na Índia, focam-se na complementaridade intrínseca do que sejam as diferentes componentes constitutivas de “fotografar” e “fotografia”. Em locais específicos, dentro de um cenário que é o real envolvente em sua potência extrema, a artista fotografou aqueles que exerciam seu acto de fotografar outrem e, por outro lado, tornou os “anónimos” em sujeitos identificados na sua pose convertendo-os em retratados. O retrato passa a alojar um sujeito, estando comprometido – ele mesmo e precisamente – por relação de sujeito: implica um sujeito suposto, por referência a si. O sujeito do retrato é o sujeito que é o próprio retrato. No caso de uma das sequências da série de Cristina Ataíde, verifica-se existir um desdobramento, pois a artista fotografa aqueles que exercendo o ato de fotografar…; propiciando e expandindo concatenações intersujetivas entre retratados, retratos e aqueles que retratam (que concebem e autorizam o retrato…).
Tal afirmação não equivale àquilo que possa ser “tachado” de excesso subjetivado. Não, ao que me refiro é à inevitabilidade. A fotografia é soberana, decide, alimentando-se e consubstancializando-se no domínio da inevitabilidade.
O sujeito no retrato que fica da paisagem, lembrando Bernardo de Carvalho que assinalou: “Você não está procurando um lugar. Está procurando uma pessoa.” (3)

Em 2009, Marcelo Moscheta desenvolveu uma residência artística em Cerveira (norte de Portugal). Daí resultaram diferentes séries de trabalhos, posteriormente concretizados, entre os quais os registos fotográficos emancipados, subsumados na séria Tracked Pictures. Nas imediações da casa onde ficou alojado, o artista brasileiro foi pesquisando pormenores, detalhes e deles tomou posse. Daí resultaram imagens fotográficas, reveladoras de uma cúmplice proximidade que o próprio sabia encontrar e que os demais tomam como lugar inominado e não-reconhecido, atendendo à subtil decisão de tomada de vista, enquadramento e intencionalidade. As imagens, tomadas por um dispositivo digital foram trabalhadas a posteriori. A sequência de intervenções mínimas, que o fotógrafo realizou, traduziu-se em séries gráficas, de quase equações encriptadas, espécie de relato dos procedimentos para quem saiba decifrar essa “escrita” que ladeia a fotografia, uma a uma.
Moscheta, de forma rigorosa, tem pretendido marcar as coordenadas de locais que regista ou de onde desloca materiais, através de códigos GPS. Esse método equivale a opções estéticas, de pensamento artístico que direcionam para a realização de ações a converter finalmente em obra. O bucolismo destes excertos de paisagem que de estranha lhe passou a ser familiar, progride numa acepção de viagem que sedentariza transitoriamente o autor a um lugar de destino. O questionamento do que se entende seja a duração na transitoriedade semântica e pragmática da viagem, coincidem numa experiência prolongada na resistência da obra fotográfica. Tempos distintos cohabitam e as memórias antecipam-se no ato de virem a ser, não devendo confundir-se com “lembranças”. Os locais de paisagem dentro das fotografias de Moscheta podem ser seguidos por nós, numa busca intermedial entre algo é remetido para um destinatário e a possibilidade deste fazer o rastreio progressivo da sua localização até ao momento em que o irá receber…

Mariana Viegas desenvolve presentemente um projeto de pesquisa que concilia literatura e fotografia, ganhando corporalidade através do display das suas peças. A partir de Walden ou a Vida nos Bosques, de Henry David Thoreau… O livro foi escrito quando o autor americano – de vocação transcendentalista – passou a habitar uma cabana em Walden Pond (Massachusetts) abandonando a cidade onde vivia. Esta tensão para a transição, envolve a condição de viagem. Tanto efetiva deslocação, pois trasladação de sua pessoa para assumir “uma vida nos bosques”, com todas as consequências daí advindas, que recordam as tradições ingenuista e utopistas, desde o Emile de Rousseau até às ideologizações de Taine, Proudhon… propugnando uma estética doutrinária de cariz sociológico utópico e operativo…permitindo-me certas extrapolações. Essa densidade da escrita decisória que domina a vida, num quotidiano que não é destino de viagem mas é, por deliberação, uma permanência, desdobram-se um dos scrolls – enquanto display de duas unidades daquilo que se dirige para uma obra “completa” ainda em devir.

O livro representa a paisagem ideal – interpretada conceptualmente como um lugar que encontramos quando nos focamos no que temos diante dos nossos olhos: o tempo presente – representando para mim, desta forma, o momento fotográfico.
O processo de trabalho combina a leitura do texto com a experiencia da natureza que se encontra na vida de todos os dias.
Neste contexto serão realizadas fotografias de um lugar nas imediações da Arrábida que tenho vindo a fotografar ao longo dos anos e outras, no lugar onde vivo actualmente. (4)

A artista procura transpor em imagens as vivências narradas pelo escritor, interrelacionando-as às suas experiências pessoais, transcrevendo excertos, “compostos a partir do original mas apresentando pequenas fissuras que provocam uma nova leitura do mesmo, abrindo a leitura para uma realidade actual e mundana.” (5)

Nos apontamentos alusivos à Ynaiê Dawson na Série Linhas de Passagem, a fotógrafa refere:

Interessa-me a idéia da viagem como processo, como metáfora da própria vida, um trilhar de caminhos sem destino certo, em busca de (auto-) conhecimento. Não importa aqui de onde se partiu e com que destino, importa apenas o estar ‘entre’. O que se descobre ou se revela ao longo desse ‘caminhar’, contínuo interseccionar das paisagens interior e exterior, contínuo fluxo de sensações a nos tomar conta da alma?
A fotografia, em si mesma sempre um ‘entre’ – pressupõe um antes e um depois, temporal e espacial – e que por excelência conserva, busca aqui conservar apenas o desejo latente que desencadeou a produção de cada imagem e que continua latente nela, sempre se transformando, renovando, devindo desejo a cada vez que se estabelece um novo contacto entre as fotografias e um sujeito.(6)

A concatenação de imagens fotográficas apresentadas, gerem intervalos que correspondem a etapas de jornadas empreendidas pela artista nos 2 últimos anos. Paralelamente a um trabalho académica em decurso, as viagens verificavam-se imprescindíveis.
As reflexões que Ynaiê Dawson procurou em autores emblemáticos da filosofia, sociologia, estética e literatura precisavam seu espelhamento nos atos de conceber as viagens e, obvio, de as concretizar. [De várias conversas com Ynaiê, por motivos de sua investigação, surgiu precisamente a proposta, que me foi endereçada, para que esta curadoria fosse delineada.]
Atendendo à história e estética da fotografia no séc. XX, depara-se com casos paradigmáticos de fotógrafos que desenvolveram viagens, com um ritmo quase compulsivo, sendo os produtos de suas deslocações, permanências e trânsito consubstancializados em fotografias incomparáveis.
Entre os muitos autores que se poderiam mencionar, reduziria a citação a Raymond Depardon, Bernard Plossu, Luc Delahaye… As motivações para a viagem prendem-se com antecedentes e contextos diversificados que se relacionam nalguns casos com a tradição de fotógrafo em cenários de conflito, fotografia mais diretamente documental ou projetos mais pessoalizados e auto-identitários. Se bem que, a meu ver, todos projetos fotográficos são em certa escala e enfoque de vertente auto-identitária quanto societária.
Com frequência os fotógrafos publicam livros com imagens fotográficas associadas a narravtivas e/ou reflexões aprofundadas sobre os seus projetos, permitindo assim a um público mais vasto o conhecimento de suas fundamentações, ideias e realizações em obra.

La quête du « lieu acceptable » est la quête du « moi acceptable ». C’est à dire d’une vie assumée comme sienne. L’homme qui s’exprime ainsi est un voyageur, un nomade, un photographe, un cinéaste etc. Mais d’abord un individu qui se cherche et qui ne trouve pas. Ou plutôt qui définit un angle, un cadre, un sujet (la route), une perspective, celle du chemin justement.(7)

A busca de lugares, passíveis de serem denominados, quanto eventualmente “reconhecidos” pela vida do espectador, quase se projecta naqueles lugares (aparentemente) anónimos, propostos pelo fotógrafo. Promovendo extrapolações geográficas que galgam países e regiões…o “exotismo” adentro de uma paisagem portuguesa ou de uma qualquer e outra radicação, providencia, transforma e concretiza, de modo intenso, a ânsia de viagem de e para um público – doseando ou expandindo seus desejos ou demandas. Ou seja, e podendo aplicar-se a uma certa teorização da (por assim a designar) acção dos fotógrafos-viajantes, entendo como um dos denominadores comuns entre os 6 casos patentes (e em muitos outros que poderia referir) a constatação de certa gula de imagens em devir, convertidas em potenciais alvos de fixação por parte de um fotógrafo-autor.
Ao longo do friso imaginário que – para mim – o ver os dítpticos implica, confrontam-se aproximações e afastamentos, detalhes, pormenores e dissidências antropológicas e societárias que a poiésis subjacente, sabe ser coerente…, pois a vida, o mundo se constituem a partir de dissemelhanças, de similitudes, de ausências ontológicas mesmo quando todo aquele “material” que se converte em visibilidade aparentemente expandida, cujos conteúdos semânticos viabilizam campos perceptivos e argumentativos infindos. A decisão de “enxergar” na imagem fotográfica determinado fragmento do suposto “real” surge conotado com a circunstância do artista (lembre-se Ortega y Gasset).

Talvez quando se viaja, se permaneça no mesmo “lugar”, pensando com Guimarães Rosa:
“Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.”(8)

RJ | BR, Agosto, Setembro 2011.

* Ainda para ti, passeante dilecto no mundo.

(1) Raymond Depardon, Errance, Paris, Seuil, 2000, p.56.
(2) Pedro Xisto – Lumes, uma antologia de Haikais, SP, Berlendis & Vertecchia, 2007, p.17
(3) Bernardo de Carvalho, Mongólia, São Paulo, Companhia das Letras, 2003, p.41, p.115
(4) Mariana Viegas, excerto inédito, Agosto 2011.
(5) Idem, ibidem
(6) “Nesse contexto, a fotografia é tida não como representação, mas sim expressão. Expressão da multiplicidade de sensações ou intensidades de um sujeito, expressão de uma paisagem interior que encontra-se em constante processo de transformação, sempre a (re)criar-se a partir do apre(e)nder as forças das paisagens.” Ynaiê Dawson, excerto inédito, Julho 2011.
(7) « Rêves d’errances » – Pierre Givodan in Raymond Dépardon, Errance, Paris, Seuil, 2000, p.181.
(8) João Guimarães Rosa – “A terceira margem do rio”, Primeiras Estórias, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, (1962), 2004, p.80

A PLATAFORMA REVÓLVER é uma associação privada, independente – sem fins lucrativos. Promove a arte contemporânea através da organização de exposições e de residências, e participa activamente na difusão e no diálogo internacional da arte.
A Plataforma Revólver construiu um espaço activo para o público de Lisboa, plataforma de novas ideias acerca da arte contemporânea; produz exposições temporárias, oferecendo a possibilidade aos artistas plásticos para poderem apresentar e discutir os seus trabalhos, colmatando, deste modo, um dos problemas fundamentais com que se debatem os novos criadores: a dificuldade em encontrar um lugar a partir do qual se façam conhecer, expressando-se e, simultaneamente, receber o contacto com o público – vital para que os seus projectos evoluam – submetendo-se ao seu olhar, olhar esse que poderá ser absolutamente crítico ou complacente. Apesar do foco ser a arte que os mais jovens actualmente fazem, o programa da Plataforma Revólver também inclui artistas bem-conhecidos, estabelecidos.

A Plataforma Revólver apoia e estimula a criação de arte contemporânea, em concordância com o carácter da prática artística nos dias de hoje, integrando as exposições vários meios e métodos de produção. A composição das exposições é ditada, por um lado, por um comissariado exterior à direcção do espaço, por outro, pela preocupação com a arte contemporânea e onde a arte assume um papel no desenvolvimento da cultura cívica e do pluralismo.

Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
(Sophia de Mello Breyner)

Publicado a 12 de Outubro de 2011

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«Acreditar no mundo é aquilo que mais falta nos faz; perdemos o mundo por completo, desapossaram-nos dele. Acreditar no mundo é também suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controlo ou façam nascer novos espaços/tempos, ainda que de superfície ou volume reduzidos.»

Gilles Deleuze, Pourparlers, Paris, Éditions de Minuit, 1990

«Sou o meu próprio governo.»

Gustave Courbet

Intrinsecamente produtora de mitos, Lisboa possui uma longa história de espionagem e de actividades clandestinas. Do pessoal ao colectivo, da impostura ao desarreigamento e ao percurso existencial, esta cidade, porta da Europa, questiona uma cultura da acção, da deslocação e do ficcional.

A acção do filme Casablanca desenrola-se durante a Segunda Guerra Mundial, época em que a fuga e a capacidade de dissimular a identidade, o passado, os sentimentos e as convicções moldam a trama do argumento (a cidade de Casablanca era francesa, mas ocupada pelos alemães).
De Paris a Marselha até Casablanca, o nome de Lisboa é uma constante no filme. É a cidade a alcançar para partir para os Estados Unidos e passa a ser a plataforma de todas as fantasias e de todas as vontades para fugir ao nazismo. Só os atalhos serão possíveis, os que permitirão «criar a ilusão». À luz desta referência cinematográfica, a exposição alimenta-se também de uma importante referência literária, a de Fernando Pessoa. Indo buscar o título a um dos seus livros, a exposição tem como ponto de partida a noção de infiltração. Longe de ter uma abordagem didáctica ou demonstrativa, esta exposição é uma reflexão sobre as relações entre ficção e documentário, entre intervenção directa e fábula, já que a noção de filtro permite enunciar um conjunto de novas posturas adoptadas por determinados artistas, quer sejam antropológicas, políticas ou sociológicas.

A dimensão processual e práxica do gesto é um elemento fulcral desta exposição colectiva que reúne 9 jovens artistas franceses. Questionando os níveis de leitura e de apreensão, estes artistas revelam as relações contraditórias ou ambivalentes com os sistemas de pensamento, de crenças e de sociabilidade. Através de acções frequentemente perigosas e programadas, os artistas esboçam narrativas, deslocam e captam realidades para as porem à prova.

Ângulos de ataque, captação e deslocação do real: a infiltração em questão

INFILTRAÇÃO, O Privilégio dos Caminhos é uma exposição que evidencia as tácticas, os procedimentos, as intervenções e as produções de ficções de uma jovem geração de artistas. Prestando especial atenção ao real e ao factício, à objectividade histórica e à criação, ao arquivo e à colecção pessoal, estes nove artistas recorrem a métodos, instrumentos e abordagens diferentes. Construída simultaneamente sobre as suas obras e a descompartimentação das suas práticas, a exposição focaliza-se nas junções entre estética e política.

Destacando modalidades plásticas que oscilam entre estratégias documentais e formas poéticas, os artistas entram nos sistemas de representação dominantes recorrendo aos campos cognitivos da sociologia, da ciência, da antropologia, da teologia e da história.

Lisboa infiltrada, cidade-plataforma às portas do mundo

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Cidade inapreensível, cidade labiríntica, Lisboa, porta do mundo, terá sido fundada por Ulisses numa das suas viagens. Portugal construiu-se com base na sua situação geográfica: um país no extremo da Europa. O regresso da democracia, em 1974, com o 25 de Abril e a adesão à União Europeia, em 1986, marcam o fim do isolamento do país.

No início do grande período de expedições e descobrimentos portugueses, planos e dispositivos secretos, aliados aos seus vastos conhecimentos, permitiram que os navegadores portugueses fossem mestres no domínio marítimo. Mestres que não queriam divulgar os seus segredos, mas que procuravam sempre saber mais. Mais recentemente, durante a Segunda Guerra Mundial, o Eixo e os Aliados dispunham de importantes serviços diplomáticos em Lisboa, um dos únicos locais da Europa dilacerada em que as duas partes se podiam encontrar em pé de igualdade. Ambas procuraram também descobrir segredos nesta cidade, que cedo transformaram num verdadeiro «ninho de espiões». No filme Casablanca, «o avião para Lisboa» era o único meio de fuga e permanece o exemplo mais célebre das actividades secretas que aí se desenrolavam à época. Apesar de ser uma nação neutra durante a Segunda Guerra Mundial, Lisboa tornou-se no ponto de encontro dos espiões, que aproveitavam as ligações estratégicas do país com o Atlântico.

Acto de fictio: O Privilégio dos Caminhos?

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>> Fictio, termo latino que abrange as noções de feitura, fingimento, disfarce e ficção.

Fernando Pessoa afirma que fazer arte lhe parece cada vez mais uma terrível missão – um dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador de civilização de toda a obra artística (carta a Cortes-Rodrigues, 19.1.1915). Além de uma crise de identidade do sujeito e do tema da pluralidade do eu, Pessoa põe à prova as vertigens do ser.

Segundo Antonio Tabucchi, Pessoa percebeu o reverso das coisas, do real e do imaginado, a poesia dele é um juego del revés. Nesta perspectiva literária, trata-se de interrogar a narrativa, a narração, a relação que a fábula mantém com o real. De que forma o verdadeiro, o falso e o factício estão interligados com o conhecimento histórico? Os escritos de Carlo Ginzburg, historiador italiano nascido em 1939, defendem a realidade histórica na óptica do testemunho. Chefe de fila da micro história, as suas obras estão repletas de acontecimentos contados sob vários ângulos, de modo a apresentar uma espécie de história microscópica, o mais próxima possível da verdade dos factos.

Percursos oblíquos e heterodoxos – os artistas reunidos para esta exposição afastam-se dos dogmas e das ideias feitas. Não conformista, alegre e subversiva, esta visão do mundo alerta para o perigo, combinando impertinência, surpresa e força: uma busca do desassossego da arte.

Publicado a 12 de Outubro de 2011

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Benjamin Beker, 2000 (Pozarevac)

Benjamin Beker, 2000 (Pozarevac)

Abigail Reynolds, Ania Dabrowska, Benjamin Beker, Hannah Dakin, Peter Ainsworth, Rita Soromenho, Tess Hurrell

 

Everything we see could be otherwise
Tractatus, Wittgenstein

O mundo, incluindo os actuais paradigmas da arte, está instável. Quando o mundo está instável, as pessoas perdem a confiança nos sistemas de conhecimento e poder, ou em casos extremos, transformam-se em seus cegos seguidores. Isso pode parecer perigoso, excitante, positivo ou assustador – dependendo da percepção. Durante séculos essa condição tem proporcionado um espaço para a introspecção artística sobre o que é ser humano.

At the Edge of Logic não procura dar explicações ou respostas definitivas. Os sete artistas internacionais reunidos nesta mostra lidam com a lógica paradoxal do seu mundo, através do processo de questionamento das estruturas formais, estéticas e narrativas do trabalho e definindo a ideia da natureza arbitrária da percepção. Usam a fotografia para explorar e comunicar as suas ideias e processos, produzindo imagens que exigem ao espectador uma análise mais profunda das intenções do artista e o abrandamento do seu modo de olhar.

A fotografia é, na sua essência, uma construção visual, uma forma conceitual, abstracta de interpretação. Enquanto a luz a situa no real, a fotografia nunca foi uma transcrição exacta do mundo, mas um “estranho espaço confinado” *. Embora no seu inicio se acreditasse que a fotografia copiava o mundo em toda a sua exactidão e detalhe, como se a natureza se desenhasse a ela própria, o processo fotográfico torna o mundo bidimensional e imóvel. Devido à sua tradicional ligação ao “real” – a ideia de que uma fotografia é uma referência, um registo directo do que aconteceu, sempre houve uma tendência para explicar, identificar o que é retratado numa fotografia.

Os artistas aqui apresentados, cada um de uma maneira diferente, desafiam os parâmetros da fotografia e transgridem as suas funções historicamente estabelecidas, a fim de exteriorizar o interno, de escapar ou encontrar outras esferas de representação. Transformam o seu trabalho num acto de emancipação das formas dominantes da lógica, pegam em segmentos visuais do nosso meio cultural, reconfiguram-nos.

Afinal, a percepção é uma acção de tomada de posse e de apreensão do mundo com a mente e os sentidos. O que se apreende é resultado de interacções entre experiências passadas e as nossas interpretações do que vemos. Como vão os seres humanos escapar ao determinismo cíclico do seu próprio conhecimento? Estes processos de reconfiguração do mundo poderiam ser visto como fetichismo ou manipulação? Isso revela nostalgia artística para a materialidade, ou, pelo contrário, poderia ser visto como uma forma de crítica à superficialidade, o efémero, ou talvez até um desejo de encontrar novas interpretações do mundo, que cada um sente ser esmagadoramente pré-descrito?

*Mary Price, “The Photograph: A Strange, Confined Space” (1994)

 

 AT THE EDGE OF LOGIC

Everything we see could be otherwise
Tractatus, Wittgenstein

 

The world, including the current frameworks of art, is unsettled. When the world is unsettled, people lose confidence in the systems of knowledge and power, or in the extreme, they can turn into their blind followers. This can seem dangerous, exciting, positive or scary – depending on one’s perception. Throughout centuries this condition has provided an arena for artistic introspection on what it is to be human.

At the Edge of Logic does not look for explanations or gives final answers. The seven international artists brought together in this exhibition deal with the paradoxical logic of their worlds by making the process of questioning manifest in the formal, aesthetic, and narrative structures of the work, and by championing the idea of the arbitrary nature of perception. They use photography to explore, communicate, and process their ideas producing images that require the viewer to slow down the process of looking and to analyze in more depth the intentions of the artist.

In essence, a photograph is a visual construction, always a conceptual, abstract form of interpretation. Whilst light grounds photography in the real, the photograph was never an exact transcript of the world, but a “strange, confined space”*. Although early photography was believed to copy the world in all its completeness and detail, as if nature was drawing itself, the photographic process renders the world two-dimensional and still. Because of its traditional connection to “the real”- the idea that a photograph is a referent, a direct record of what has been, there’s always been a tendency to explain, to identify what is depicted in a photograph.

The artists exhibiting in this show, each in a different way, challenge the parameters of photography. They transgress its historically established functions in order to externalise the internal, to escape or to find other realms of representation. They turn their escapism into an act of emancipation from dominant forms of logic, taking visual segments of our cultural surroundings and reconfiguring them.

After all, perception is an action of taking possession and apprehension of the world with the mind or senses. What one perceives it’s a result of interplays between past experiences and our interpretations of what we see. How are humans to escape the cyclical determinism of their own knowledge? These processes of reconfiguring the world could be seen as akin to the fetishism of manipulation. Does this reveal artistic nostalgia for materiality, or on the contrary, could it be seen as a form of critique of the superficial, the fleeing, or maybe even a desire to find new interpretations of the world, which one feels to be overwhelmingly pre-described?

*Mary Price, “The Photograph: A Strange, Confined Space” (1994)

Publicado a 1 de Julho de 2011

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Lourenço Marques, 1975, Arquivo Carlos Mingote

Lourenço Marques, 1975, Arquivo Carlos Mingote

Cátia Mingote, Cláudia Rita Oliveira, Diogo Bento, Diogo Simões, Francisco Kessler, Jorge Gonçalves, José Júpiter, Luís Monteiro, Maria Manuela Rodrigues, Marta Castelo, Miguel Godinho, Pedro Maçãs, Ricardo Spencer, Vitor Medeiros.

Curadoria: Ana Janeiro e Bruno Pelletier Sequeira

 

ARTISTAS REPRESENTADOS

Cátia Mingote
O trabalho de Cátia Mingote radica na ideia de registo pessoal e de memória colectiva. Nascida na antiga colónia portuguesa de Moçambique em 1973, Cátia Mingote cedo conviveu e se interessou pela reiterada presença e existência de imagens e de objectos familiares que registavam situações e momentos de vida desenrolados entre Portugal e África. Fortemente motivada a reflectir sobre as características simbólicas, singulares e partilhadas das experiências vividas e das memórias revividas de gerações com percursos de vida entre Portugal e África, neste projecto, intitulado Lourenço Marques, interessou-lhe indagar esse legado simbólico construindo um projecto de trabalho assente na construção de uma narrativa que oscila entre realidades, contextos espaciais e temporais diversos, entre as imagens da memória e a presença dos objectos num novo quotidiano presente.

Cláudia Rita Oliveira
“Continuidade entre dois seres descontínuos” é o título do projecto apresentado por Cláudia Rita Oliveira. Numa alusão directa à obra “O Erotismo” de G. Bataille, cujo tema é o erotismo e a morte, a experiência de substituir a descontinuidade dos seres por um sentimento de continuidade profunda, Cláudia Rita aborda o poder criativo, ficcional e subjectivo da memória através de um grupo de imagens marcadamente pictóricas e plásticas que representam a ideia de casal, a existência de uma relação amorosa entre dois seres através de um retrato de gestos, de expressões e impressões que consubstanciam uma entidade própria num momento efémero, entre a continuidade e descontinuidade, a eternidade e efemeridade.

Diogo Bento
O projecto de investigação de Diogo Bento constitui uma homenagem à resistência e sobrevivência da memória de Amílcar Cabral, um dos principais responsáveis pela luta, libertação e independência da Guiné e de Cabo Verde. Sendo clara a necessidade de preservar e revisitar a vida e a obra de Amílcar Cabral, a sua proposta de construção de um arquivo dedicado a coleccionar documentos relacionados com o seu legado, sejam fotografias, suportes áudio, vídeo e alguns objectos, constitui uma investigação que não tem o propósito de formar uma narrativa com rigor documental e/ou histórico. À luz das práticas artísticas de alguns autores contemporâneos que têm desenvolvido projectos baseados na apropriação de imagens documentais e na releitura desse legado, Diogo Bento revela assumidamente o desejo de construir uma ficção geradora de novos significados assente numa visão parcial, reflexiva, sobre a vida de Amílcar Cabral.

Diogo Simões
A questão da identidade, da comunidade e o sentimento de pertença são abordados na obra de Diogo Simões (n. 1988, Miratejo) mediante um exercício fotográfico de registo diário de um conjunto de amigos pertencentes ao seu círculo. Nascido em Miratejo, Diogo Simões tem mantido através da sua obra artística uma forte ligação ao seu contexto envolvente, ao espaço, às pessoas, à história, ao sítio em que vive. Neste conjunto de imagens evidenciam-se formas de vida, contextos, vivências, paisagens, ambientes, estados de alma, cujo registo resulta e só é possível com um acompanhamento próximo, com uma visão não exterior a esta comunidade. São imagens relevantes do ponto de vista sociológico, provocadoras no seu significado político e social e que acima de tudo revelam, no equilíbrio discreto do seu testemunho vivencial, a naturalidade em que institui o seu olhar. Nelas Diogo Simões expõe os outros, mas não se limita a isso, joga com a força e o peso da sua contribuição biográfica.

Francisco Kessler
As fotografias apresentadas por Francisco Kessler constituem dois ensaios de um projecto fotográfico mais vasto do autor que tem como referente essencial questões políticas e ecológicas implícitas à edificação de grandes obras públicas. No caso destas imagens, trata-se da construção de uma barragem (Foz Tua) e de um aeroporto internacional (em Beja) que geram polémica: a alteração de uma paisagem ambiental considerada património da Humanidade pela UNESCO e a consequente destruição de uma linha de comunicação centenária (Linha do Tua); e a construção de uma infra-estrutura aeroportuária sem viabilidade económica.  Nos dois casos, a questão situa-se na falência ou não das promessas de crescimento económico e prosperidade que suscitam debate a nível nacional e europeu.

Jorge Gonçalves
Neste trabalho de Jorge Gonçalves, “Casamento/Divórcio/Diversos” encontramos uma série constituída por imagens de espaços, fotografados em conservatórias do registo civil, maioritariamente salas e ambientes onde se realizam casamentos, divórcios e outro tipo de ‘contratos’. Nelas está patente a homogeneidade, a padronização do tipo de decoração, e mesmo a destituição de especificidade na escolha dos actos que aí se celebram. Nas imagens estão ausentes as marcas da presença humana surgindo autenticamente destacado o uso inexpressivo, descaracterizado, ficcional, clínico, não natural, das estruturas burocráticas que suportam alguns dos actos e rituais emblemáticos da vida humana.

José Júpiter
Em “Billy”, José Júpiter associa um modelo de mobiliário comercializado pela multinacional IKEA, de estrutura elementar, a blocos habitacionais cuja configuração arquitectónica, modernista, formada por inúmeros edifícios modulares de apartamentos isolados do exterior, que sugerem um modo de viver a cidade e a arquitectura na sociedade contemporânea. Tomando por referência a obra “Cell Block, Egospheres, Self-containers”, de Peter Sloterdijk, José Júpiter cartografa visualmente as noções de “isolamentos interligados” e de “egosfera” propostos pelo autor para caracterizar o habitat do homem contemporâneo e a visão que hoje temos da cidade e do objecto arquitectónico. A sua intervenção remete-nos assim para composições habitacionais formadas por fachadas de corpos fechados que atestam o desaparecimento da dimensão de esfera pública bem como as marcas a-comunitárias provocadas pelo estabelecimento de relações baseadas na ilusão de auto-suficiência.

Luís Monteiro
O projecto de Luís Monteiro constitui-se enquanto narrativa de uma viagem de exploração e de aventura. Neste ensaio, a viagem é apresentada como um processo de descoberta que promove o encontro com o espaço exterior e fundamentalmente enquanto experiência potencial de viagem ao interior de si próprio, capaz de produzir uma transformação na forma de viver, de olhar, de sentir e encontrar sonhos e fantasias. Não lhe interessa documentar os acontecimentos que compõem a  viagem de descoberta, antes questionar as interpretações que o documento  visual pode assumir, questionar que perspectivas de verdade são criadas pela informação fotográfica, apresentada, tradicionalmente, como fundamento imposto e quase inquestionável de conhecimento.

Referências: Held in the collection of the Royal Geographical Society (with IBG): S0004829, S0000151, S0019751, S0022327, S0013541, S0019282, S0019283;  U.S. Navy Photograph – Antarctica, autor inderminado; Earless Seal Hunting Antarctic Winter Old Photo 1880’s; Photographer/Credit : Interphoto; 1965 American Air Defense Command Greenland Wire Photo; autor indeterminado; Greenland, 1926;autor/publicado por: H. Hammel

Maria Manuela Rodrigues
Na sua obra “Cidades Globais”, Maria Manuela Rodrigues coloca em perspectiva as noções de identidade global e de normalização social e os efeitos e as implicações que a globalização económica, política, ideológica exercem sobre a sociedade actual. Manuela Rodrigues procede a uma síntese de registos e fragmentos fotográficos que nos situam perante imagens características da vida nas cidades da Europa e do Médio Oriente, destacando através dessas fotomontagens aspectos da arquitectura e da paisagem urbana actual. Dessa abordagem faz também parte a representação da dimensão massificada da cultura popular, a profusão de marcas comerciais e de padrões e hábitos de consumo, que testemunham experiências e movimentos de uma existência quotidiana uniformizada e padronizada.

Marta Castelo
A dimensão da experiência, o processo de investigação e o conhecimento de metodologias laboratoriais são parte inerente da intervenção artística de Marta Castelo e muito particularmente do trabalho que agora apresenta. Em “Limites da Consistência” apresenta-nos uma intervenção artística que incide na observação da argila no seu meio ambiente e no conhecimento da natureza dessa matéria através da realização de experiências em atelier e no laboratório de geologia. Partindo do meio natural, interessa-lhe observar e documentar a metamorfose do material e as suas características, procurando nos fragmentos uma relação com a natureza e a paisagem de onde este provém, mas sobretudo o conhecimento de metodologias, a dimensão processual do projecto e o conhecimento sensível produzido durante a pesquisa, anterior à tradução da experiência em factos e números.

Miguel Godinho
A obra de Miguel Godinho incide, desde 2005, na expressão e evocação de aspectos reais, históricos da realidade existencial, social, cultural do seu mundo familiar. O seu trabalho, essencialmente realizado em fotografia, vídeo e livro, reflecte circunstâncias da história individual do artista. Nesta exposição mostra-se “Esta é a minha família”, a mais recente série de trabalhos do artista que reúne maioritariamente fotografias antigas deterioradas da sua família – desde imagens da infância da sua mãe, casamentos, baptizados, viagens em Portugal e ilhas, Açores e Madeira – em que o artista expõe o verso, as marcas da deterioração da imagem e os efeitos da passagem do tempo, com o objectivo de desencadear planos de leitura metafórica para a situação de luta pela sobrevivência económica que a família viveu após a falência financeira que se seguiu a um prémio elevado dos jogos sociais.

Pedro Maçãs
O conjunto de fotografias de Pedro Maçãs, que tem por título “No surprises” (2010), pode ser definido como um processo de aproximação, captação e realização de ambientes representativos de esferas de experiência humana. A sua obra caracteriza-se pela tradução visual da experiência, do imaginário, de reflexões ou visões e, por vezes, pela criação de situações que podem ter lugar em diferentes contextos do espaço privado e público. A caracterização de uma geração pode ser uma referência fundamental do seu trabalho, que transpõe a dimensão fragmentária, indirecta, livre, da experiência e do tempo para diferentes dimensões sequenciais da imagem. A constante da sua obra define-se ainda pelo registo de visões que destituem a fronteira entre realidade e imaginário e por exercícios de interpretação, de codificação de uma realidade processada tendo em consideração perspectivas que transcendem a percepção directa do mundo real.

Ricardo Spencer
“Menos Vinte e Cinco” é o título e o fio condutor deste trabalho de Ricardo Spencer. Trata-se de uma série de composições fotográficas, nas quais o artista explora a identidade do lugar a natureza e o contexto de determinadas paisagens frias registadas em Helsínquia. A questão da adversidade, a dificuldade de caminhar, o isolamento, colocam-se metaforicamente através delas, construindo-se um projecto centrado na reflexão sobre o horizonte não programático de conhecimento e experiência propiciado em viagem e o percurso criativo que o próprio artista tem desencadeado em busca de imagens que lhe revelem secretamente planos e paisagens visuais construídas em contacto com referências culturais e literárias que o acompanham.

Títulos (da esquerda para a direita) Ficções; De Profundis Valsa Lenta; Possibilidade de uma Ilha.

Vitor Medeiros
A produção artesanal é um dos temas que compõe a realização do mais recente trabalho de Vítor Medeiros. “Resistentes” constitui um projecto desenvolvido em torno de um conjunto de unidades de produção artesanal, ofícios, personagens, artistas e mestres, que representam a história do mundo do trabalho. Vítor Medeiros desenvolve registos fotográficos onde apresenta espaços, ambientes, práticas, instrumentos de trabalho, artefactos, processos produtivos que evocam a dimensão singular e única desta cultura e o impacto que sobre ela poderá ter o constante progresso tecnológico, a uniformização e a padronização dos processos produtivos. Porque do seu projecto resulta uma forte impressão nostálgica, este é um trabalho que vai muito além de um documento histórico. Vitor Medeiros expõe a crescente distância que nos separa da sua realidade e ao mesmo tempo a carga simbólica que advém da acção de quem teima em salvaguardar a memória e resistir à passagem do tempo.

Publicado a 30 de Junho de 2011

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