8
Mai
a
14
Jun
Novas Geografias
MÓNICA DE MIRANDA

Comissária: Lúcia Marques

A artista MÓNICA DE MIRANDA
Mónica de Miranda é uma artista cuja biografia cruza diferentes nacionalidades reflectindo-se desde logo essa intersecção fértil de referências no seu próprio trabalho. A sua obra tem dado origem a uma miríade de paisagens com variadas identidades culturais, recorrendo também a múltiplas possibilidades de expressão (vídeo, fotografia, som, escultura, instalação) para reflectir sobre os novos territórios transnacionais do mundo onde vivemos. Interessa-lhe o modo como a experiência migratória global se tem tornado uma nova actividade topológica, influenciando decisivamente a recriação de fronteiras geográficas, culturais e sociais, bem como a nossa própria noção de “lugar” e de “sentimento de pertença” a um contexto específico.
A artista parte da sua própria experiência pessoal e do seu círculo de amigos, familiares e colegas, para levar a cabo uma série de estratégias artísticas, habitualmente feitas através de uma rede activa de colaboradores, nas quais a participação é estimulada, motivando assim também o debate sobre a própria criação artística junto de públicos mais alargados, nomeadamente através de workshops desenvolvidos com comunidades locais. Ou nas suas palavras em conversa para a preparação desta exposição: “É uma reflexão da minha própria experiência de imigração e relação com essa realidade dentro da minha comunidade pessoal de amigos e familiares. Reflicto sobre a minha biografia e território transcultural que ocupo no Mundo” (Mónica de Miranda).

NOVAS GEOGRAFIAS: Londres-Lisboa-Amesterdão
Novas Geografias, de Mónica de Miranda, é uma exposição que surge do desenvolvimento dessas actividades multifacetadas, permitindo um olhar actual sobre o trabalho que a artista tem vindo a desenvolver nos últimos anos. Organizada na primavera de 2007, em Londres, na 198 Gallery – Contemporary Arts and Learning, a sua itinerância foi pensada como um circuito entre grandes cidades marcadas por fluxos migratórios, implicando a co-produção de um conjunto de novos trabalhos relacionados com o respectivo contexto local de apresentação. A exposição assenta assim no estabelecimento de uma rede co-curatorial que liga Londres (Eva Langret/198 Gallery), Lisboa (Lúcia Marques/Plataforma Revólver) e Amesterdão (Evelyn Raat/Imagine IC), conectando os diferentes espaços de apresentação e respectivos interlocutores.

A exposição na PLATAFORMA REVÓLVER

Acolhidas pela Plataforma Revólver, um espaço alternativo ao circuito institucional de Lisboa, estas “novas geografias” propõem uma reflexão sobre o facto da criação artística se ter tornado o território por excelência da interculturalidade, tendo a obra de Mónica de Miranda como ponto de partida. Trata-se da primeira mostra individual da artista em Lisboa, na qual se reunirão 3 novos trabalhos relacionados com esta cidade (Greater Lisbon – A to Z, Tuning Lisboa, e Where r u from), para além de 4 séries realizadas entre 2004 e 2007 (Changing skins, In the Back of our hands, Bitting Nations, e States) e de uma escultura inédita (Comic Relief, 2007).
Houve ainda oportunidade de criar uma extensão da exposição no Voyeur Project View (de 12 de Junho a 13 de Julho 2008), permitindo ligar duas das mais promissoras estruturas que em Lisboa têm dado espaço a projectos independentes no domínio da arte contemporânea.

As “novas geografias” transitarão por sua vez para o Imagine IC – Imagine Identity and Culture de Amesterdão, sob curadoria de Evelyn Raat, somando ao conjunto de trabalhos comuns à exposição de Londres e Lisboa as novas produções que mapeiam as diferentes comunidades que actualmente caracterizam a maior cidade dos Países Baixos. A última etapa desta itinerância terá então lugar em Londres, num regresso à 198 Gallery, que apresentará uma selecção das novas obras realizadas nas capitais inglesa, portuguesa e holandesa, reunindo as diferentes perspectivas trabalhadas por Mónica de Miranda numa rede de cidades, locais, pessoas, biografias, identidades.

Publicado a 7 de Maio de 2008

27
Mar
a
3
Mai
Uma Combinação
ARMANDA DUARTE

marco-08-019

“Uma Combinação”

Armanda Duarte apresenta três trabalhos que estabelecem relações entre si. Já o próprio título da exposição, “uma combinação”, alude a esse propósito, mas também se dirige a relações não visíveis na exposição que estão na sua génese. O título, tanto remete para o jogo que se pode estabelecer entre as diferentes peças expostas, como para outro trabalho imediatamente precedente, exposto no Centro Cultural de Lagos, que se intitulava “A Reformada”. Este tipo de vínculos, que estabelecem uma relação em teia, são comuns no universo da obra da artista.

Se os projectos expostos na Plataforma Revólver remetem para o acto de combinar, de juntar coisas de origens diversas com o objectivo de formar um corpo, em “A Reformada” o que estava em foco era o traje que pertencia a uma memória do quotidiano da artista. Só a título de curiosidade, referia-se à padeira que, durante anos, existiu no seu bairro (o que, extrapolado, incluía todas as padeiras de bairro com uma profissão em fase de extinção), que se apresentava, na maior parte das vezes, vestida com uma bata sobre a combinação. Não se dirigindo directamente a este facto singular que poderia ser muito mais lato, importa, nas duas peças, frisar um certo anonimato do labor por detrás de um “uniforme quotidiano”.

Esta introdução, de alguma forma emblemática, serve para compreender o universo do trabalho de Armanda Duarte, que parte de princípios conceptuais que mergulham no seu quotidiano próximo. A artista constrói um universo sensorial que, mesmo apesar de ser inserido num quadro social, nunca se conforma com uma reacção imediata ou tentativa de representação simplista do real. O seu trabalho apela sempre a uma construção poética dessa realidade e ao discernimento de sentimentos universais partilháveis em qualquer contexto cultural. A artista inscreve-se no meio dos acontecimentos que geram a sua ordem poética apelando mais ao seu ser que à sua presença. Nessas circunstâncias, é difícil falarmos do seu trabalho a partir de uma perspectiva formal e técnica quando se olha para o conjunto da sua obra. Ela varia muito de trabalho para trabalho, com opções materiais e formais ao serviço da poética das ideias. Cada trabalho é um ciclo que está em contágio com o ciclo precedente e dando origem a outros por indução. Materiais, formas e expressão são convocados conforme as necessidades de cada projecto. O que resulta é uma interrogação sobre a possibilidade de uma representação do real mais complexa.

O trabalho que se apresenta, “Uma Bata e uma Combinação”, composto por círculos de barro que contêm água, resulta de várias referências. Da memória de uma viagem, em que tecidos enrolados ao lodo serviam para estancar e conduzir a turbulência da água da enxurrada, e parte ainda de uma lembrança dos vasos de flores que se perfilam nos pátios portugueses, nomeadamente dos pratos que reservam a água debaixo deles. No entanto o que conduz este trabalho não é tanto o retrato dessas duas realidades imediatas nem as questões socio-culturais implícitas mas a observação de um gesto de cuidado de manutenção com um valor mais amplo, universalista e abstracto. Para além da plasticidade do trabalho, o que se requer é a manutenção diária das formas circulares de barro. Este lado performativo é manifesto diariamente por cinco eleitos do seu círculo de amigos, denominados “Os Vigilantes”, título doutro trabalho exposto. Uma vez por dia, um deles passa pela galeria para verificação e manutenção da obra. Têm ao seu dispor, no próprio espaço expositivo – à vista do público –, todos os elementos necessários para os seus cuidados:
água para preencher os contentores, assim como uma tesoura e uma bata que pode ser retalhada para o caso de ser necessário vedar as gretas que se possam gerar nas paredes de barro. A enumeração dos elementos é uma das constantes na obra da artista que nos fazem lembrar a preocupação de uma objectivação do trabalho artístico fora de qualquer tentativa de transcendência.

Seria a presença dos vigilantes que daria, então, origem a um segundo trabalho a expôr na Plataforma Revólver. O projecto começou com a solicitação de um desenho em torno da idade de cada um dos participantes que, posteriormente, deveria enviá-lo pelo correio. Na sequência, a artista desenhou com um certo realismo cada um dos
projectos enviados para, depois, expôr numa prateleira. De certa forma, são cinco desenhos de desenhos explorando a sua tridimensionalidade. São igualmente a oportunidade de registar outras presenças. Armanda, neste como em outros trabalhos, tem abordado a possibilidade de uma comunicação dialógica entre ela e os assistentes. Esta prática vem de uma certa relação que a artista estabelece com o projecto em si. Cada projecto constitui-se como um enunciado que estabelece, à partida, uma ordem e uma perspectiva de desenvolvimento. Podem autonomizar-se seguindo as premissas muitas vezes de ordem lógica ou matemática. Daí que,
momentaneamente, possam estar à deriva, sob efeito de factores exteriores, que tanto podem ser outros sujeitos como outros factores de ordem natural. A organicidade que está, em geral, presente nos seus trabalhos prende-se, muitas vezes, a esta questão da sobreposição de acidentes decorrentes de um desenvolvimento natural das coisas. É como se a linearidade estabelecida pelo enunciado se prestasse a um espaço suficiente para o outro, ao imprevisível e ao disforme que lança o caos regenerador. No caso desta exposição, os contentores encontram-se à mercê das reacções do próprio material, assim como das intervenções dos vigilantes que os vão condicionar provocando diariamente transformações. Em outros trabalhos anteriores verificaram-se vários estratagemas de calendarização e de contabilização que eram sobrepostos a uma outra temporalidade marcada por transformações da organicidade dos elementos convocados.

No conjunto da obra de Armanda Duarte talvez importe referir o silêncio
que se constrói no seu entorno. É uma sensação que nasce da fragilidade, da minuciosidade e da discrição com que os seus projectos se apresentam ao público. A performance dos vigilantes, mesmo que diária, não antevê a necessidade de um espectador, a não ser ocasional. Contudo, o vestir a bata implica uma ideia de performance, e o vigilante individualizado incorpora todo o quotidiano laboral repetitivo que se perde num grande silêncio. Ou seja, o seu trabalho convoca o que no quotidiano há de mais anónimo e invisível. Associa uma consciência que ultrapassa a ausência de espectacularidade do quotidiano, intimando a discreta presença da singularidade.

Por fim, o último projecto, “60m3”, nasce de um jogo com o próprio espaço expositivo. Construído a partir de linhas que são estendias em tensão no espaço, procura-se criar um desenho aéreo que, de certa forma, contrapõe e cria relações com o lado terreno do outro extremo. O desenho desenvolve-se como uma simetria do outro lado do espaço expositivo e, como o seu próprio título indica, sublinha a abstracção e
a invisibilidade da matéria espacial, características de eleição sempre presentes na obra da artista.

Francisco Vaz Fernandes

Publicado a 26 de Março de 2008

24
Jan
a
15
Mar

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Artistas:
Ivo, Joana Rosa, Margarida Dias Coelho, Tiago Borges e Rui Valério
Comissários: João Fonte Santa e António Caramelo

CENTRAL EUROPA 2019 propõe um especial cruzamento, de escrita automática, entre as comemorações de um falso centenário da escola modernista alemã Bauhaus (Weimar 1919, Berlim 1933), e o filme Central do Brasil. No filme, uma criança a quem morre a mãe num acidente, depois de ser vendida a uma rede de tráfico de órgãos, atravessa o Brasil à procura do pai desaparecido.
Entre um jogo de espelhos e simulacros formais, CENTRAL EUROPA 2019, a apresentar na Plataforma Revólver, parte também à procura do “pai modernista” na ansiedade de encontrar uma utopia dourada pela qual possa dar a vida.

Publicado a 23 de Janeiro de 2008

22
Nov
a
31
Dez

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Vídeos de José Maças de Carvalho

O vídeo está entre a fotografia e a pintura, em termos de materialidade: conserva a fisicalidade dos materiais (textura, pigmentos, etc.), aproximando-se da pintura, mas também da fotografia pelo formato, cor e facilidade de acesso.

“Video killed the painting stars” é uma abordagem iconoclasta a algumas imagens basilares da história das artes visuais (de Caravaggio, Velasquez, Manet, Helmut Newton a Andy Warhol ou Jeff Wall) em 11 vídeos Ou porque se destroem obras, ou porque se modificam, ou porque a acção acrescenta novas camadas criando uma nova obra, radicalmente diferente da original.

Em peças como “Video killed the painting stars”#2 (Manet), desmonta-se o “erro” de perspectiva que reforça a incerteza do que estamos a ver: Quem vê e que é que é visto? Em “Video killed the painting stars”#3 (Wall) anula-se o efeito de espelho e coloca-nos na verdadeira posição do espectador, consciente do “truque”.

“Video killed the painting stars” toma como ponto de partida a ideia de que há em nós uma pulsão destruidora da imagem, substanciada por inúmeros exemplos ao longo da história do homem: desde Jesus a expulsar os vendilhões do templo, passando pela iconoclastia luterana ou pela explosão do budas afegãos até Mr. Bean apagando a cara da mãe de Whistler.

O autor investiu-se desta pulsão destruidora e transformadora e escolheu obras
significativas da cultura visual do nosso tempo. Para tal usou a classificação dos diversos tipos de iconoclastas referidos por Bruno Latour em “What is iconoclash? Or is there a world beyond the image wars?”. Assim temos iconoclastas clássicos que não aceitam as imagens como mediadoras do conhecimento e que consideram fundamental a sua erradicação total; outros pensam que não se deve extrair uma imagem da torrente de
imagens e isolá-la; outros atacam ou censuram as imagens pelo seu valor simbólico para os outros e não por serem imagens; outros, simplesmente destroem para construir de novo, e ainda, outros usam a provocação e a irreverência para afirmar a sua independência em relação à imagem.

A experimentação e a investigação deste projecto também levou o autor a criar uma nova série de vídeos chamados “Iconofilia” e que reflectem, não a ideia comum da obsessão pela imagem, mas, sim, a perseguição da verdadeira imagem, da imagem perfeita numa procura de objectividade e verdade.

Publicado a 21 de Novembro de 2007

28
Set
a
3
Nov
Pedro Tudela, João Fonte Santa e António Olaio

Pedro Tudela, João Fonte Santa e António Olaio

Artistas: António Olaio, Frederico Ferreira c/Blasted Mechanism, Graça Sarsfield, João Fonte Santa, Luís Alegre c/Jancl, Miguel Soares, Nuno Rebelo, Pedro Tudela, Valdjiu

Remote Control – quando a música se encontra com as artes plásticas numa exposição dedicada ao relacionamento entre as duas disciplinas, explorando links criados entre artistas e músicos, na actualidade.
A música liga tudo: através da influência que exerce, e da sua imprescindibilidade no dia a dia, no nosso contacto com o exterior.

A música primeiro que tudo é um objecto cultural.
Desde a segunda metade do século vinte até ao tempo em que vivemos, o nosso estilo de vida mudou muito.
Nos anos sessenta assistiu-se a um ataque à normalidade e ao consenso cultural do pós-guerra. Tudo quanto era incontrolável desabou e a transformação irreversível dos jovens havia começado: o impacto foi revolucionário, as coisas mudaram para sempre!
Nos anos sessenta a música mudou para uma dimensão intensa da vida -democratizando o direito ao prazer-, criando movimentos de massas e “ligou os jovens” apreendidos por essa intensidade necessária para derrotar os defensores das normas. Os jovens usavam a música da mesma maneira que usavam a marijuana, como um propulsor, como o emblema da sua insubordinação, a provocação para o vandalismo erótico.
(Philip Roth, O animal moribundo)

A exposição Remote Control* apresenta uma ligação entre a música e a arte, e a riqueza das suas combinações, através de trabalhos criados por artistas e músicos, onde a música é o tema.
A música inspirou a concepção desta exposição, que revela -através das obras áudio e vídeo- um contexto plurisensorial, e a sua percepção visual e sonora como dimensão estética; obras de áudio e vídeo, instalação e performance, são o instrumento ideal para produzir a união entre as imagens e músicas.
A exposição convida o observador a isolar-se acusticamente e a concentrar-se na audição especifica de cada obra: o espectador só frui a obra através dos auscultadores que está obrigado a utilizar, para recepcionar o som.
O espaço expositivo revela uma aparente imersão silenciosa -um aparente silêncio auditivo-, mas de facto o visitante é invadido por uma multiplicidade de fontes de som, que transformam o espaço da Plataforma Revólver numa proposta -instrumento de reflexão-, sobre a experiência estética do casamento entre imagens e música, nos nossos dias.

victor pinto da fonseca

Publicado a 27 de Setembro de 2007

29
Jun
a
31
Jul
Patrícia Sousa, Useful, Available and Free, 2007, fotografia cores (várias), som digital 1’49’’

Patrícia Sousa, Useful, Available and Free, 2007, fotografia cores (várias), som digital 1’49’’

Artistas: Catarina Botelho, Luís Nobre / Emily Clay, Orlando Franco, Patrícia Sousa, Pedro Bernardo, Susana Gaudêncio

Tendo como ponto de partida o livro de George Perec Life a Users Manual em que o autor descreve o que encontra no interior de um edifício bem como as sua histórias …Uma inacreditável teia de mobílias, objectos e brincadeiras numa inextrincável mistura (…) Aqui e ali alguns objectos mais identificáveis podem ser reconhecidos no meio deste imenso bric-á-brac: um goniómetro, um braço de madeira articulado que ao que se sabe pertenceram ao astrónomo Nicolas Kratzer ; uma bússola apontando o norte(…) uma pagina de um livro antigo com diversas espécies de ervas(… ) dezassete pequenos peixes dourados com instruções em sânscrito(… )building blocks.
O projecto de Clay e Nobre incorpora intrigantes similaridades em ideias de sociedade e natureza como simbolismo de um desejo de outro lugar. Permitindo um dialogo entre trabalhos onde forma e iconografia são contemplados por cores e contrastes que se podem transpor e convergir. É por uma linha cronológica e global que diversas figuras animais articulam fissuras entre tempos (épocas/ambientes) e categorias, investigando ideias de mundo natural e simbólico. Num dialogo entre estética e abjecção visceral. O humano encontra o design, questionando onde a sociedade coloca o ideal de belo, aproveitando a ressonância entre exactidão e digital, visceral e manual.. explorando o drama entre limites e fluxo. O natural e a escala.

Publicado a 28 de Junho de 2007

10
Mai
a
31
Jul
743.3
ANDRÉ SIER

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O trabalho de André Sier tem uma construção serial e integra um procedimento de actualização do pensamento do autor a partir de arquitecturas – estruturas algorítmicas que se desdobram em várias dimensões perceptivas do espaço. 747 é um projecto cujo desenvolvimento cumpre esta metodologia, assim como struct também desenvolvida em versões sucessivas.
747.3 é apresentada apenas por uma noite e resulta de uma proposta que fiz em simultâneo ao artista e à Plataforma Revólver. Por um lado, confrontar o autor com um espaço diferente daquele em que tem trabalhado, abrindo outras possibilidades à instalação da obra e às suas condicionantes espaciais até aqui propostas. Por outro, ocupar a galeria com uma intervenção que se realiza num só momento, irrepetível, e que vai ao encontro das características multifuncionais da Plataforma.

747 é a designação técnica que a empresa Boeing usou para denominar um dos seus maiores projectos, o avião de grande porte a que vulgarmente se chama “Jumbo”. O 747 da Boeing, desenvolvido em sucessivas versões, do 747-100 até ao 747-8 Intercontinental, foi o paradigma das viagens aéreas de longa duração durante mais de três décadas. De certa forma, como um grande navio cruzador dos mares estratosféricos, que reificou o sonho e a utopia de Leonardo da Vinci, Bartolomeu de Gusmão, ou mais tarde de Lilienthal . Este precursor executava pequenos voos num planador controlado pela movimentação do seu corpo.
André Sier desenvolveu a série 747 até à presente versão .3, construindo-a a partir de um modelo baseado num programa de um simulador de voo. É uma instalação inter-relacional com o espectador/utilizador criando uma experiência que se assemelha à sensação do voo. A sucessão das três versões desta obra não pretende apresentar variantes da mesma, mas alterar e construir uma progressão da densidade imersiva que cada uma delas vai convocando para a performatividade do participante. Este acciona, através de dispositivos de reconhecimento de
imagem, a possibilidade do voo em duas dimensões interligadas na percepção do espaço: uma experiência da paisagem visual e sonora que oscila em simultâneo com a sensação da acção do corpo que se movimenta no espaço inicial. É esta proposta de acção, dirigida ao sujeito, que cria um universo aparentemente virtual, mas que se torna real e concreto no momento em que o utilizador controla o fluxo num ambiente imersivo reforçando a autonomia do seu corpo através de uma estratégia do autor que se afasta do uso de próteses ou dispositivos que condicionem fisicamente a percepção do sujeito. A acção desenvolve-se consoante a sensibilidade e intuição daquele que se entrega à experiência, perante um universo intocado, que apenas pode ser reclamado pela sua potencialidade performativa. André Sier transforma o participante em elemento essencial da obra. Presença poderosa de convocação e evocação dos meios que se encontram inertes e despojados do seu “efeito mágico”, numa apologia do voo, inebriante e quase dionisíaca, como uma coreografia indeterminada e aleatória.
Tal como Lilienthal, o autor constrói as condições para a experiência. Mas sabe que o maior grau de aperfeiçoamento do seu instrumento, encontrará uma só possibilidade, a liberdade e capacidade que o sujeito tem de experimentar.

João Silvério

1. Da série struct, inicida em 2001, vemos em 2006 uma nova versão, struct_5, que parte de um princípio semelhante ao da obra 747.3 e é desenvolvida como um dispositivo interactivo que capta e interfere com o som e o movimento visual que ocorre num espaço. O próprio utilisador pode quasi-desenhar a forma como o som se dá no espaço, onde a quantidade de movimento, a singularidade da diferença entre as imagens fixas que a câmara captura da interacção das pessoas, devolve, mais no esquerdo ou no woofer direito, o resultado de um confluência contínua do fluxo sonoro. (cf André Sier na descrição da peça struct_5 no catálogo da exposição ArtEscapes: Variacions de la vida en les arts multimèdia, Universidad Politècnica de València, Vicerectorat de Cultura, 2007)
2. Otto Lilienthal, nasceu em 1848, em Anklam, na Alemanha. Foi pioneiro da aviação e influenciou os irmãos Wrigth através da ideia e experimentação de uma metodologia assente na implusão do próprio corpo: o salto é o ínicio do voo.

Publicado a 9 de Maio de 2007

24
Mar
a
28
Abr

Carlos Alberto Carrilho, S/Título, 2006, vídeo, loop, PAL, cor, som, 5´37´´

Carlos Alberto Carrilho, S/Título, 2006, vídeo, loop, PAL, cor, som, 5´37´´


 
Artistas: Ana Bezelga, André Simões, Antje Feger, Benjamin Florian Stumpf, Carlos Alberto Carrilho

A exposição Voyage, Voyage  reúne um conjunto de projectos artísticos que se inscrevem a partir de 23 de Março nos circuitos da cultura visual em Lisboa. Os contornos desta exposição são definidos através do conjunto criado pelos trabalhos de André Simões, Ana Bezelga, Antje Feger & Benjamin Florian Stumpf e de Carlos Alberto Carrilho distribuídos pelos vários espaços da galeria Plataforma Revolver. A exposição apresenta uma heterogeneidade de ideias e pensamentos num território equivalente, de fronteiras dinâmicas de onde se pode livremente partir e regressar, onde aquilo que se retirará das obras será proporcional ao tempo que cada visitante dispensar às mesmas. Suponhamos que encaramos esta exposição como uma viagem onde, mesmo não estando à procura, encontramos no seu percurso uma boa oportunidade para reflectir sobre o que vemos. Suponhamos também que, tal e qual como nas viagens onde a disponibilidade para observar e absorver é instintiva e fluída, encontramos nas referências que se seguem coordenadas possíveis de um mapa que pode ser activa e individualmente reinventado. Sendo assim, vejamos como estas obras vão definindo a pouco e pouco geografias e alimentando a relação dos conceitos que trazem inscritos:
A instalação e o vídeo de André Simões “Não muito Longe Daqui” (2005-2007), mostra um inventário selectivo e exaustivo de itens que pertencem ao universo privado. O autor parece transformar, numa experiência, entre o absurdo e o familiar, a escala deste colectivo de objectos numa mimesis do espaço público e numa alegoria da vida urbana.
Ana Bezelga apresenta a projecção de diapositivos “RE:” (2006) onde, através de uma agregação dos conceitos de género, feminismo e identidade, ritualiza uma passagem do conhecimento entre duas mulheres de gerações e lugares diferentes. Os valores chave da arte femininista do passado, problematizados através da presença de Ana Mendieta , encontram-se aqui em diálogo com a prática artística da própria Ana Bezelga. No vídeo “Baltic Draft 2” (2006), a dupla Antje Feger & Benjamin Florian Stumpf reflecte sobre uma viagem que fizeram com Dani Leventhal, uma amiga norte-americana à procura das suas raízes pela Europa de Leste. Segundo os autores este  trabalho questiona a diluição de fronteiras culturais entre os diversos lugares visitados. Carlos Alberto Carrilho expõe o vídeo “Sem Titulo” (2006), uma narrativa que se desdobra gradualmente sobre um intenso efeito de clímax. O vídeo é apresentado num monitor colocado sobre uma mesa, que tem aqui um duplo papel, como lugar da obra e também como a única testemunha dos eventos a que se assiste. Carrilho estabelece simultaneamente uma relação enigmática e provocadora entre a construção de valores históricos e a legitimação da sua historia.

Sofia Ponte

Publicado a 28 de Abril de 2007

20
Jan
a
17
Mar
Isabel Ribeiro, "Uns minutos antes", 2006

Isabel Ribeiro, "Uns minutos antes", 2006

Artistas: Andreia Brandão, Artur Duarte, Isabel Ribeiro, João Fonte Santa, Joseph Kosuth, Rui Silvares

Entre os dias 20 de Janeiro e 16 de Março de 2007 reuniram-se na Plataforma Revólver obras dos artistas Andrea Brandão, Artur Duarte, Isabel Ribeiro, João Fonte Santa, Joseph Kosuth e Rui Silvares.
Para que conste na presente acta, ficou previamente acordado que Isabel Ribeiro irá expor duas obras Uns Minutos Antes (2006) e Rubor (2006) e os restantes participantes uma obra, respectivamente: Andrea Brandão, sem título (2007), Artur Duarte, S/Título [Apagado] (2007) João Fonte Santa O Cavaleiro Fantasma (2003), Joseph Kosuth One and Three Radiator (1965) e Rui Silvares, Aid El Quebir (2006).
Foi deliberado que a ideia de montagem/edição iria unificar toda a práctica desta exposição.
O artista/comissário João Fonte Santa disse:
“Ver um curador em cada esquina faz-nos lembrar que também a arte está sob apertada vigilância… Decrescente Fértil é uma exposição que é pela edição e contra o controlo policial (comissário-burocrático).
Nada mais a Dizer
Tudo a Fazer!”

Mesmo havendo mais assuntos a tratar, foi encerrada a referida sessão da qual foi lavrada a presente acta.

Publicado a 19 de Janeiro de 2007

11
Nov
a
31
Dez
Der Fehler, Galvanised Butterfly  (Leader's head), 2006

Der Fehler, Galvanised Butterfly (Leader's head), 2006

Artistas: Catarina Saraiva, Der Fehler, Flávio André, João Simões, Paulo Tuna, Pedro Cabral Santo e Tiago Batista
Comissariado: Pedro Cabral Santo

A procura das relações entre coisas, entre pessoas ou entre ambas, no complexo meio artístico, distingue-se, nos nossos dias, pela tentativa de estabelecer graus de comparação entre as suas intrínsecas e íntimas essências. Michael Duncan explicita, deste modo, que o artista contemporâneo é alguém que tenta, no actual contexto, encontrar alternativas para a pintura, a escultura, a vídeo-arte ou mesmo a instalação na suas diversas formas e aportes. Esta necessidade de encontrar paradigmas alternativos ou, como Rosalind Krauss os define, apoiados por suportes mais livres e simultaneamente mais próximos do espectador veio provocar, necessariamente, uma arte aparentemente mais livre de constrangimentos (essencialmente de origem técnica mas não só). Estas formas que se assemelham à primeira vista ao campo da escultura ou a corpos espacializados tridimensionalmente apressam-nos, de algum modo, a tentarmos ir de encontro à forma e não tanto à necessidade de a produzir. Estamos a falar de objectos tridimensionais que também ostentam os tradicionais problemas afectos às texturas, às cores, às formas ou mesmo àqueles que envolvem o peso, a escala, a matéria, etc.
Num tempo que está submerso numa quantidade infindável de imagens visuais com origem diversa, verificamos que se impõe esta opção por um trabalho que parece ir na direcção contrária àquilo que se afigura como mais “realizável”. Talvez como um processo desviante mas, ao mesmo tempo, revigorante, “outras coisas” surgem de forma fresca. Este ofício de cariz escultórico, que não o é, parece retomar algumas questões entretanto esquecidas. As velhas glaciações (Hal Foster) voltam ciclicamente e também à tona – orgânico/artificial – sólido/líquido – efémero/permanente – imóvel/móvel – peso/leveza – e apropriam-se das imagens e das formas bem como dos seus referentes. Voltando a Rosalind Krauss, esta parece ser uma nova forma de pensar, exclusivamente do ponto de vista artístico, talvez mais útil do que imaginar uma nova definição de Arte, de escultura ou mesmo uma nova categoria artística expressa através de uma denominação precisa. Sculp Your Mind  propõe um pequeno contributo para este debate em torno da escultura e do seu desenlace futuro. Esta ideia de duplicidade – entre o ser e o não ser – provoca-nos sempre um espaço de liberdade no que diz respeito à manipulação formal e, por outro lado, dá-nos toda a liberdade criativa no acto do fazer. Retira-se daqui o peso da hiperinterpretação, àquilo que Susan Sontag chama de desvio do objectivo primordial – aquilo que parece ser e é o que é. Deste modo, tudo, mas tudo, parece ser possível de conceber, apesar de nem tudo ter a possibilidade de vir a ser.

Pedro Cabral Santo

Publicado a 10 de Novembro de 2006

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